Viagem pela Europa
Viagem pela Europa
Viagem pela Europa
Viagem pela Europa
Viagem pela Europa

Viagem à Nascente do São Francisco

Acompanhe essa viagem, narrada de forma espirituosa e engraçada, à Nascente do Rio da Vida, o São Francisco, empreendida em 2007 pelos motociclistas Donato e Roger, ambos de Taubaté-SP

Se procurar bem você acaba encontrando; Não a explicação (duvidosa) da vida; Mas a poesia (inexplicável) da vida. - Carlos Drumond de Andrade

O Início

Terça-feira, em minha agenda a contagem regressiva continua, em principio iríamos a Andrelandia-MG, terra do amigo Carlos, que de tanto falar do local consegui-me convencer da empreitada, mas digamos que não foi tão difícil, afinal qualquer desculpa para viajar de moto é mais que válida. O estranho é que alguma coisa me dizia que a viagem não ia acontecer, dito e feito, meu celular toca, é o Carlão – E ai Don, você vai me matar, meu chefe pediu para trabalhar no feriado (sexta) e no sábado, não vai dar para eu ir na viagem, etc, etc. Enquanto falava ao telefone com o “furão” (Carlos) pensei nas alternativas próximas, litoral, serra, interior, nada apetecia, precisava abrir a gaveta de projetos, precisava de um passeio legal. Em míseros instantes meu cérebro explodiu em imagens e cores, a pulsação alterou-se, os olhos brilham ao retrovisor do carro, resgatava o projeto de conhecer a Nascente do Rio São Francisco e todas as outras belezas naturais do Parque Nacional da Serra da Canastra.

A região da Serra da Canastra, no sudoeste de Minas Gerais, possui algumas das mais deslumbrantes e desconhecidas paisagens do Brasil. Durante muito tempo, esteve isolada por precárias estradas de terra e só há poucos anos entrou nos roteiros de viagem como lugar privilegiado para a prática de esportes radicais, vivência ambiental e turismo ecológico.

A região ecoturística da Serra da Canastra tem mais de 200 mil hectares e abrange 6 municípios: São Roque de Minas, Vargem Bonita, Sacramento, Delfinópolis, São João Batista do Glória e Capitólio. A maior atração é o Parque Nacional da Serra da Canastra, criado em 1972 para proteger as nascentes do rio São Francisco e tem a portaria principal a 8 km de São roque de Minas. Dentro do Parque Nacional estão alguns dos mais belos cartões postais do Brasil, como a cachoeira Casca D'Anta, de quase 200 metros, a primeira grande queda do "velho Chico".

A região é o berço de muitos rios que ajudam a formar as bacias do São Francisco e do Paraná. Rios de uma infância ruidosa, cheia de corredeiras e cachoeiras que passam dos 200 metros de altura.

A paisagem se alterna entre campos rupestres cheios de delicadas flores, cerrado típico e matas de galerias com exuberante vegetação atlântica. É nesse ambiente que vivem protegidas espécies de animais ameaçados de extinção, como o tamanduá-bandeira, o lobo-guará, o tatu-canastra e o pato mergulhão.

A vida rural mantém as velhas tradições da cultura da região, como a arquitetura do século 19, os muros de pedra sem cimento, o queijo canastra e o carro de boi. Tudo forma um conjunto de rara beleza ainda preservado e fiel à descrição apaixonada do naturalista francês Auguste de Saint-Hilaire.

Quinta-Feira, véspera do passeio

Triste de quem vive em casa; Contente com o seu lar; Sem que um sonho, no erguer de asa; Faça até mais rubra a brasa; Da lareira a abandonar. - Fernando Pessoa

Na véspera a agenda é sempre cheia, viajar de moto requer um preparativo minucioso, e claro delicioso. Tanto quanto a própria viagem, o que a antecede é um rico alimento ao motociclista, os cuidados com a maquina, seus fluidos e mecanismos, ferramentas e peças sobressalentes, minha valente mochila (que de tão acostumada arruma-se sozinha), a analise do roteiro, se a expectativa é de frio ou calor, alguns medicamentos, apetrechos para o trekking, quem viaja sabe que o detalhe é que faz falta, uma simples pilha pode fazer falta para aquela extraordinária foto, enfim tudo segue seu propósito e a bagagem (por incrível que pareça é mínima e reduzida) ajeita-se na moto.

Dos amigos de viagem

Ter um amigo é somar alegrias e dividir tristezas. - Dito popular

Sempre fui regrado a excelentes companhias, o efetivo sucesso da viagem depende em grande parte a quem te acompanha, não só o ritmo em estrada é importante, a interação, o objetivo mutuo, o gosto e comportamento coerente, fazem da estrada um lugar aconchegante. De tanto em tanto parece que surge um novo companheiro, lá atrás, nos idos juvenis e inicio da vida motociclistica acompanhava-me Sidney, oriundo dos tempos do ciclismo, migramos juntos a motos, rodamos muito, até a encruzilhada de nossos destinos, ainda hoje quando perguntado sobre meus melhores amigos, este ainda se faz presente. Hoje me acompanha um maluco (ainda não sei se o maluco era Dom Quixote ou o escudeiro que o acompanhava, Sancho Pança) que atende por Rogério Moraes, Roger fica mais fácil, este amante das boas maquinas, outrora caminhoneiro, contava sobre sua CB450 e de quando viaja de moto etc. Falei a ele – Pare de ser chorão, compre a moto que der e vamos rodar. E não é que ele topou, recomeçou como todos, no consórcio de uma Twister 250, tirou em lance e sua alforria estava decretada, claro que não se conteve, hoje roda com uma deliciosa Suzuki Bandit, pessoa boa de garfo, gênero fácil e sorriso perpétuo, estar junto ao Roger é sempre uma felicidade...a não ser na hora de dormir, porque o menino ronca que é uma farra. Na ultima peripécia, Roger, Iran e Carlão (o furão), após uma festança na cidade vizinha (Lagoinha), foram dormir em um sitio a 100metros da estrada, um dos vizinhos do sitio que voltava sozinho e a pé pela estrada ouviu um barulho estranho vindo da casa que normalmente fica vazia, pulou a porteira e foi verificar, chegando próximo viu as motos e notou que o barulho nada mais era que o ronco turbinado do amigo Roger (rsrs).

Sexta-feira, pé na estrada

A vida é uns deveres que nós trouxemos para fazer em casa; Quando se vê, já são 6 horas... Quando se vê, já é 6ªfeira... Quando se vê, passaram 60 anos... Agora, é tarde demais para ser reprovado... E se me dessem - um dia - uma outra oportunidade, eu nem olhava o relógio; seguia sempre, sempre em frente ... - Mario Quintana

Horário combinado 7hs. Despertador?? Não, o motociclista (doido por viajar) não espera pela hora certa de levantar, antes das 6hs já estava bem acordado, com tempo para um bom banho, café tranqüilo, mergulho na indumentária e checo a moto, tudo firme. Giro a chave e escuto o alinhamento da injeção eletrônica, os ponteiros do painel fazem o chec, portão aberto, maquina em movimento, a aventura começa agora. Roger tem um ótimo costume (pelo menos no quesito passear de moto) chega sempre no horário, ainda estava comprando umas guloseimas na lojinha do posto de gasolina quando o menino chegou, sorridente claro. Um fraternal abraço, uns comentários, conferimos o roteiro e programamos a primeira parada p/ Fernão Dias na altura de Pouso Alegre-MG. Saímos rapidamente do fluxo urbano, na estrada que sobe para Campos do Jordão, por onde saímos do vale, o transito já mostrava-se lento, as maquinas gulosas por uma boa estrada, serpenteavam por entre os carros num balé sinuoso, o trecho é bem conhecido, exatamente por isso o cuidado é redobrado. Um dia iluminado, o astro Rei (Sol) a plenos pulmões deixava a estrada prateada, rapidamente (mas nem tanto) atingimos a Fernão Dias, primeira parada, abastecimento, café, pão de queijo, um dedo de prosa e a rodovia com um movimento enorme, carros, caminhões, ônibus, todos se engalfinhando nas pistas sentido BH.

A estrada

Ando devagar porque já tive pressa; Levo esse sorriso porque já chorei demais; Hoje me sinto mais forte, mais feliz quem sabe; Só levo a certeza de que muito pouco eu sei, eu nada sei... Penso que cumprir a vida seja simplesmente; compreender a marcha ir tocando em frente; como um velho boiadeiro; Levando a boiada eu vou tocando os dias; Pela longa estrada eu vou, estrada eu sou. - Almir Sater e Renato Teixeira

Para o motociclista a estrada é na realidade um grande palco, treinamos e ensaiamos este momento, compramos os melhores equipamentos (dentro do possível) adquirimos maquinas de alta tecnologia, nos esmeramos nos preparativos, aprendemos com nossos erros e saboreamos cada acerto, para enfim, desfilar num tênue fio de borracha em contato com o asfalto. Nosso teatro tem várias performances, quando da pista livre e boas condições, voamos audazes, em curvas inclinadas e acelerações plenas, um azougue delicioso, quando em condições de alerta e estradas precárias, o olhar é ávido, os reflexos rápidos a antecipação dos movimentos e situações de perigo, afinal é nossa pele que esta em jogo, é nossa habilidade e paixão a estrada que nos carrega a frente.

Fernão Dias lotada, ter uma velocidade de cruzeiro constante estava difícil, filas e filas de carros, uns nos davam passagem, outros negavam-se, utilizamos do torque e potencia das maquinas tentando manter a esquerda da pista, a direita parecia um queijo bem esburacado (será que é porque estamos em minas, rsrs). Sei que seguíamos o ritmo próximo a entrada para Três Corações, ganho um aclive com uma curva a direita, meus olhos estalam, uma terra marrom cobre toda a pista, com a moto inclinada e em velocidade era tombo na certa, desacelerei gradativamente, reduzi a inclinação, esperei pelas piores reações de aderência, mas nada, a moto seguiu imponente, achei estranho, mas no motociclismo, mais vale uma duvida estando na vertical, do que um certeza estando na horizontal (tendo caído), depois fui informado que um caminhão carregado de chocolate em pó havia tombado naquela curva há poucos dias, assim estava explicado a cor do asfalto, coisas da estrada. Vencido este bom trecho da Fernão Dias, entramos em Perdões, festa no posto, motos de porte, carregadas de malas e pilotos equipados, como sempre a prosa foi animada, para onde vamos, de onde estamos vindo, qual a cilindrada, quanto corre, etc. Muito bem recebidos, parecíamos vizinhos de longa data, abri o baú (da moto) e tirei umas fitinhas de Nossa Senhora Aparecida, daquelas que amarramos no pulso ou no retrovisor do carro, presenteei os frentistas, para eles foi um raro suvenir, só faltaram não cobrar a gasolina, com a promessa de passar pelo posto na volta despedi destes novos amigos, o interessante é como viajar de moto causa empatia nas pessoas, é impossível não ter um olhar de simples curiosidade ou admiração, quantos que quando vêem uma maquina (moto) aproximar-se avisam os filhos no banco de traz, as crianças sempre comunicativas, capricham nos olhares e acenos, nos com um leve toque de buzina agradecemos e seguimos viagem, embaixo do capacete um sorriso, dentro do peito um pouca mais de felicidade.

No trecho de Perdões até Formiga não sei quem teve a feliz idéia de fresar as curvas, explico, nas curvas eram feitos sulcos ou cortes seguindo o sentido da pista, para os carros deve ajudar muito na aderência, para as motos é um terror, nas curvas inclinamos as maquinas e os frisos nos desequilibram, assim temos que reduzir em muito a velocidade, mesmo assim da-lhe estrada, de tanto em tanto uma paradinha a sombra, uma água, uma conversa, são poucos minutos que restabelecem nosso corpo, enriquecem nossa viagem, nossa opção não é a de bater um recorde, é de curtir e muito o deslocamento, afinal somos artistas e este é nosso teatro, nosso palco preferido. Aprontar alguma também faz parte do roteiro, estava em velocidade, asfalto bom, pelo canto dos olhos avistei uma placa, dei seta, fiz o retorno com a moto, Roger segui-me sem entender o porque, alinhamos com a placa e disse – Roger, nossa fama nos precede, veja a placa (rsrsrs).

São Roque de Minas, portal da Canastra

A vida é como jogar uma bola na parede; Se for jogada uma bola azul, ela voltará azul; Se for jogada uma bola verde, ela voltará verde; Se for jogada fraca, ela voltará fraca; Se a bola for jogada com força, ela voltará com força; Por isso, nunca jogue uma bola na vida de forma que não esteja pronto para recebê-la. A vida não dá nem empresta. Não se comove nem se apieda. Tudo que ela faz é retribuir e transferir aquilo que nós lhe oferecemos. - Albert Einstein

Chegamos em São Roque por volta das três horas, em meu planejamento não teríamos problemas com acomodações, ledo enganos, estava rolando a Festa do queijo Canastra e a cidade lotada, arrumar uma vaga para pernoite seria uma briga. Tudo a seu tempo, estacionamos as motos na praça, confraternizamos um forte abraço pela chegada segura, uma boa e gelada cerveja, cercado de olhares curiosos, estávamos totalmente fora do enredo da cidade, claro que ela tem motos e muitas, mas são de trilhas, nada de maquinas grandes, quadricilindricas ou big trail. Nos dirigimos a agencia turística da cidade e com um sotaque bem mineiro escutamos um “Tem vaga não moço”, acredito que sempre o universo conspirará a nosso favor, basta estarmos em sintonia e saber entender o que ele quer. Insisti um pouco, perguntei por possibilidades, nada, perguntei sobre pousadas não conveniadas a agência e recebi um olhar de interrogação – É moço, tem da Dona Antonia, mas sei não?? Já dormi em lugares totalmente loucos e precários, mais “um” não seria de assustar, o importante era ser seguro para nós e as motos e ter um teto, de resto a gente se vira. Pegamos as motos e nos dirigimos à pousada, até que bem instalada, só que pelas minhas deduções estava sendo usada como moradia da família, Dona Antonia, muito solicita, apresentou-nos o quarto, uma suíte com várias camas, mobiliada (roupas no armário, etc) com o morador ausente, para nós estava ótimo, o preço melhor ainda, apenas disse que não havia café da manhã e que o banheiro estava sem chuveiro que o filho logo colocaria. Sem opção logo topamos o lugar, descarregamos as motos, um banho mesmo gelado para tirar a poeira e revitalizar a alma, trocamos de pano (roupa) e descemos ao centro da cidade. Antes de tudo verificamos que nossa janela dava no galinheiro, começava a farra, Roger logo disse – Don, escute como este galo canta, parece uma CB750 cruzando o estradão. Tentei ouvir e nada do galo cantar, esperamos mais um pouco e nada, Roger chegou a janela e imitou uma galinha (rsrs) co-co-co-co, o galo fez um alvoroço, veio correndo ao encontro do galinhão e logo soltou um cocoricoooooooooooooooooooo longo que realmente parecia a fatídica e saudosa 7 galo, claro que o apelido do menino (galo) ficou como motogalo e a toda hora ele disparava em corridas cantantes, para nós eram só risadas, e os outros hospedes com certeza não entendiam o porque toda vez que o galo cantava nós ríamos (rsrsr).

A cidade tem nome de santo, mas já foi terra de índio bravo e negros guerreiros. Os primeiros habitantes da região de São Roque de Minas foram os índios cataguases, que apesar da fama de ferozes, foram dizimados pelos brancos ainda no século 17. Praticamente nada ficou deles, além do nome. Depois vieram os negros escravos fugidos que formaram alguns quilombos célebres na região da Serra da Canastra. O mais famoso foi o do Pai Inácio, que dizem ter sido tão grande quanto o de Palmares. Os negros aproveitaram muito bem a abundância de água e as terras férteis da cabeceira do São Francisco e viviam da agricultura, da pesca e da caça. Resistiram durante longos anos ao domínio dos brancos, mas foram aniquilados numa batalha sangrenta sob o comando de um certo Diogo Bueno da Fonseca, em meados do século 18. Em 1819, o naturalista francês Auguste de Saint-Hilaire conheceu a Serra da Canastra e revelou que a cidade de Piunhi nasceu de um acampamento de soldados reunidos para combater os negros da Canastra.

A população encontrada por Saint-Hilaire nas fazendas da época já era outra: brancos e mestiços vindos dos centros de mineração em decadência, os primeiros habitantes da pequena povoação que se formaria próximo à capela de São Roque e se tornaria distrito de Piunhi em 1842. Hoje o turismo começa a se destacar como atividade econômica e promete mudar a vida da cidade. Nos últimos 10 anos surgiram muitas pousadas e outros empreendimentos no setor. O número de visitantes anuais saltou de aproximadamente 2 mil para mais de 30 mil, conforme os registros do Parque Nacional. Já a noite, depois de alimentados, nos recolhemos a nosso quarto onde servimos de uma bela refeição aos pernilongos mineiros, cansados do dia, meus pensamentos estavam em nosso objetivo principal, chegar a nascente do Rio São Francisco.

A hora da verdade

De tudo ficaram três coisas: A certeza de que estamos sempre começando; A certeza de que é preciso continuar; A certeza que seremos interrompidos antes de terminar. Portanto, Devemos fazer da interrupção um recomeço; Da queda um passo de dança; Do sonho uma ponte; Da procura um encontro. - Fernando Sabino

Ser chamado de louco é normal, quando de uma viagem (de moto) ao sul procurando por temperaturas negativa isso era o que mais ouvia. Traçado nosso roteiro, seguiríamos por estradas de chão até o Parque Nacional da Serra da Canastra, a qualidade da estrada era uma incógnita, na padaria onde tomamos um rápido café alguns presentes nos incentivavam, outros indicavam jipes para alugarmos, uns diziam que cairíamos, outros nos cumprimentavam pela ousadia, enfim viramos um banco de apostas. Maquinas em movimento, estrada de chão brava (sempre em subida), não tinha muitas pedras, tinha é um areião branco tipo um saibro bem fininho que fazia poços de pó fofo onde a roda da frente teimava em deslizar e a traseira perder tração, com muita paciência e habilidade e sem medo de parar a moto e por o pé no chão chegamos “inteiros” a portaria do parque.

Rapidamente passamos pela portaria, seguimos pelas estradas do parque encontrando com jiperos e motos de enduro, todos se assustavam com nossas motos (street) quando a deles eram bem mais preparada e adaptadas ao terreno. A areia e o pó continuavam, quando cruzamos com outro veiculo temos que parar tal a poeira que sobe, o visual fantástico do lugar limpava nossos olhos, fotos, muitas fotos, nosso premio e nossa lembrança, rejubilamos, nosso objetivo primeiro fora alcançado.

Não resisto a uma boa piada, tomo muito cuidado, as vezes a pessoa não entende, mas neste lugar não contive-me, ao chegar a nascente muitos girinos do tamanho de uma bola de gude habitavam o pequeno lago, nisso um doido cheio de brincos chega ao meu lado e pensando que sou um guia diz – Nossa que peixinhos esquisitos. Olhei para o Rogers e este sorriu como que dizendo “Pronto, lá vem mer...” Olhei para o doidinho e falei - Não amigo, não são peixinhos, são os espermatozóides do velho Chico que vêem fecundar a mata virgem, afinal aqui é a nascente, lembra. Com um ar de quem não entendeu muito ele saiu coçando a cabeça os companheiros dele só faltaram afogá-lo no lago. Era só risada, Roger tratou de tirar-me dali as gargalhadas – Don é melhor irmos embora, daqui a pouco vamos tomar uma corrida (rsrsr) Que nada, o espírito de quem visita a Canastra é de pleno sorriso.

Sabores da Canastra

Abrindo um antigo caderno, foi que descobri: Antigamente eu era eterno. - Paulo Leminski

Para chegarmos ao nosso segundo destino do dia, a cachoeira do cerradão, tivemos que retornar a São Roque, depois de engolir tanta poeira é já sabendo que enfrentaríamos uma estradinha de igual qualidade, paramos para saborear uma das delicias culinárias da canastra, o queijo canastra, produto típico mais importante da região o queijo Canastra artesanal é feito de leite cru. Produzido há mais de duzentos anos, ele é primo distante do queijo da Serra da Estrela, de Portugal, trazido pelos imigrantes da época do Ciclo do Ouro. O clima, a altitude, os pastos nativos e as águas da Canastra dão a esse queijo um sabor único: forte, meio picante, denso e encorpado. O queijo Canastra deve ser consumido curado ou meio curado, com pelo menos uma semana de maturação. Com o passar dos dias, ele adquire uma bela cor dourada e vai enrijecendo de fora para dentro. É boa companhia para uma cerveja gelada, cachaça ou vinho tinto. Também é consumido fresco, com até 4 dias, quando se mostra branco e parecido – e até confundido – com o tradicional queijo Minas industrializado.

Barriga cheia, pé na estrada, a área da cachoeira do Cerradão, em São Roque de Minas, foi transformada em RPPN – Reserva Particular do Patrimônio Natural em agosto de 2001 por ato do Ibama – Instituto do Meio Ambiente e Recursos Naturais Renováveis. É a primeira reserva do gênero na região da serra que se encontra aberta ao ecoturismo, com atividades de caminhada educação ambiental.

A cachoeira do Cerradão é uma das mais altas da serra: são 202 metros em 3 lances. A área tem nascentes, cerrado, campos e mata ciliar bastante preservados, uma trilha de 3km leva até a cachoeira. Roger estava com tanta cede que literalmente bebeu a cachoeira (rsrs).

Topar um uma cachoeira desta magnitude não é todo dia, suas escarpas rochosas formam um desenho singular e majestoso, mesmo com pouco volume de água devido ao inverno sua queda e seu poço são fantásticos. No poço ainda fomos contemplados com a visita de inúmeros lambaris que se refestelavam a cada pedaço de pão torrado (nosso lanche, rsrs) que praticamente roubavam de nossas mãos.

Farra feita, hora de retornar, ainda tínhamos uma boa trilha a pé e uma fatídica estradinha empoeirada pela frente. Saímos pela trilha contentes e falantes, parecíamos dois moleques que acabavam de fazer uma bela traquinagem, e não é para menos, neste dia maravilhoso fomos contemplados com paisagens impares, um sol inspirado, estradas (apesar de horríveis e quase mortais) inesquecíveis, enfim, tudo que um bom aventureiro quer.

Passamos no posto de gasolina para um banho nas maquinas, na realidade eu e Rogers é que estávamos em estado lamentável, fim de tarde, sem almoço, completamente sujos, parecíamos saídos da guerra, se não fosse pelas motos os frentistas pensariam que éramos mulambos que dormem na rua (rsrs). Um banho rápido e gelado na pousada, apesar do chuveiro instalado este funcionou apenas uma vez, aproveitamos para arrumar a tralha, no dia seguinte logo cedo estaríamos de partida. O motogalo como de costume passava “acelerando” pela janela do quarto, risadas, sorrisos, festa, nosso espírito estava leve, nossa alma viva. Descemos para cidade e paramos num tal restaurante Malibu, isso mesmo, no sertão de minas um restaurante com nome de praia, depois dizem que eu é que gosto de tirar sarro dos outros (rsrs). Logo na entrada um menino fala ao Rogers – Moço, neste lugar o que você deixar no prato tem que pagar. E o Rogers solta – Quer dizer se eu comer tudo não tenho que pagar nada?? O amigo do garoto fala. – Rapaz você esta falando tudo errado prô moço, para com isso?!?! Pensei em comer um prato típico mineiro, um feijão gordo ou tutu a mineira, nada, o Rogers logo avistou uns espetos de churrasco, seus olhos se encheram, depois de um dia de batalhas ele (nós) estava com aquela fome. Perguntei ao garoto/garçom o que estava melhor para nossa janta, ele logo respondeu, olha moço o churrasco esta mais fresco (sinal que o feijão era do almoço, rsrs), assim sendo, mande um bem suculento. Logo a mesa estava cheia, nos refestelamos com os sabores e as perguntas do garçom, felizes a contemplar nosso dia.

O retorno

O homem que venceu na vida é aquele que viveu bem, riu muitas vezes e amou muito; Que conquistou o respeito dos homens inteligentes e o amor das crianças; Que preencheu um lugar e cumpriu uma missão: Que deixa o mundo melhor do que o encontrou, seja com uma flor, um poema perfeito ou o salvamento de uma alma; Que procurou o melhor nos outros e deu o melhor de si. - Guillermo Antônio Godoy

Nosso amigo motogalo tratou de acordar-nos ao primeiro raiar do sol, teríamos muita estrada e movimento do feriado, por mais que a cama estivesse confortável (mesmo com os pernilongos) logo estávamos de saída, uma abraço na Dona Antonia que pelo simples fato de receber-nos independente das acomodações merece nossa eterna gratidão. Passamos na fatídica padaria para um café mais reforçado, pão de queijo, café com leite, pão de sal, enchemos o tanque para um dia de maratona.

Abraços a todos, votos de boa viagem e breve retorno, vamos para estrada, agora é só acelerar.... Ritmo ótimo e sem novidades, um pouco de movimento e alguns caminhões carregados e lentos, aquelas conhecidas curvas fresadas e em algumas horas estávamos na Fernão Dias, o dia lindo, o sol arrebentando, porque não almoçar em Campanha-MG com a galera conhecida. Paramos no posto para abastecer e alguns telefonemas depois a confraternização estava arrumada, marcamos para as 12:30 nossa passagem pela cidade. Entrando no trevo de Campanha (já saindo da Fernão) levanto a viseira, trocar o ar era preciso, um toc, seco, bate em meu rosto no canto do olho direito, sinto uma fisgada, meu reflexo é arrancar o que me machuca, um “buta” vespão, mesmo assim ele me ferroou de leve, a dor é intensa e desce pelo lado do rosto, acelero até a cidade, paro na praça, no espelho retrovisor da moto retiro a ponta do ferrão e metade da bunda da vespa que estavam em meu rosto, para currar encosto o copo de cerveja gelada, contido o inchaço, a dor é esquecida com boas gargalhadas e um almoço bem mineiro. Partir é preciso, a tarde se aproxima, entre fique mais um pouco e tome mais um copo, um grande abraço aos irmãos mineiros, pessoas de uma reciprocidade incrível. É hora da estrada, pau na maquina, ritmo forte, minha querida V-Strom esta alucinante, um cavalo rompante, uma flecha acida, intensa, os faróis alaranjados abrem o caminho de nossa passagem, imponente serpenteia por entre curvas e ultrapassagens. Parada obrigatória em Paraisópolis, um dedo de prosa, um café, a noite mostra sua penumbra, o movimento nas estradas vicinais pedem uma condução defensiva, no bailar dos carros pela serra ganhamos o vale, sua vista sempre me renova. Parada no posto de gasolina já em Taubaté. Chegamos, nunca como partimos, agora nossa bagagem esta repleta de novas historias, nossa retina coberta de imagens, nossa mente cheia de sons, sabores, odores, acontecimentos. Estamos de volta, íntegros e inteiros, com o olhar brilhante de uma pequena e particular vitória, o coração a pulsar diferente, agora em busca de uma nova aventura.

Se você tivesse acreditado na minha brincadeira de dizer verdades, teria ouvido as verdades que eu insisto em dizer brincando. Falei muitas vezes como um palhaço, mas nunca desacreditei na seriedade da platéia que sorria. - Charles Chaplin

Contatos com o viajante pelo e-mail:
donatomonteiro@ig.com.br