Viagem pela Europa
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Viagem ao Santuário do Caraça

Acompanhe essa viagem empreendida pelos motociclistas Donato e Cecconi (+ sua companheira Magali), ambos de Taubaté-SP) para esse local tão exótico e pouco conhecido.

Alguns lugares parecem que me chamam, Serra do Rio do Rastro, Estrada da Graciosa, Rio São Francisco, os Andes, os Caracoles Chilenos, mesmo depois de muitos anos e quilômetros de estrada, e outros tantos de bicicleta ou a pé, um “Everest” ainda não foi conquistado, o Caraça. Ouvi falar do Caraça pela primeira vez no inicio da década de 80, então com meus 14 ou 15 anos, meu negócio era virar morro ou como hoje é conhecido trekking, ou mesmo acompanhados de nossas valentes e pesadas bicicletas, não podia ouvir falar de um lugar retirado e inóspito, como um sitio, ou cachoeira, trilha, passeio, pescaria, e lá vamos nós. Então me aparece um amigo mais velho, Alfredo, contando a respeito de um mosteiro em Minas Gerais, onde entre trilhas, cachoeiras e outras adversidades, à noite os lobos comem nas mãos dos padres, e não é só, entre onças e cobras, entre grutas e montanhas, impera uma penumbra diferente, algo que só estando lá para conhecer. Pronto, não preciso dizer mais nada, por anos este lugar habitou meu imaginário, já era bem crescido e até experiente no assunto aventura, mas desde então meu imaginário alçava vôos por este mosteiro.

Rodamos por outras trilha e outros caminhos, a galera daquela época já não tem o mesmo pique, alguns se enveredaram por outras estradas, alguns partiram para o andar de cima, o Caraça cresceu comercialmente, agora é bem estruturado, já foi inclusive matéria de Globo Repórter, há uma vasta literatura a respeito na internet, já aparece no mapa, outrora, ninguém sabia onde ficava, agora é chegada a hora de receber a nossa visita, o que nos aguarda.......

Primeiro dia (04/09/2004) - Tudo arrumado e revisado na véspera, o cuidado foi redobrado, agora a estrada era mais longa, a confiança na Falcon (meu cavalo de aço) e no equipamento que estava levando me deixavam tranqüilo, o que me agitava era que passado tanto tempo finalmente estava acelerando rumo ao Caraça.

Na noite anterior à viagem, como de costume, não consegui dormir, a expectativa era muito grande, seguiríamos primeiro para Ouro-Branco-MG, participando do encontro motociclistico na Cidade, no dia seguinte, passaríamos por Ouro Preto, Mariana, via Estrada Real, seguindo pela Serra do Espinhaço ate Catas Altas e finalmente o Caraça.

Às 5hs já estava na casa do Ceconi, confraternizamos, contamos umas histórias e outras estórias, terminamos de fechar a bagagem dele e da Maga, tomei um café com bolacha que me fez um mal terrível, às 6hs tudo pronto, uma rápida e inspirada oração, um fraternal abraço, capacete, luvas, tudo certo, subi na Falcon e apertei o botão de partida, minha fiel maquina respondeu de pronto, a pulsação aumentava junto com os giros do motor, olho pelo retrovisor, vejo o Ceconi balançando a cabeça em sinal de negativo, a CB500 se negava a pegar, e com o frio da noite, logo a bateria estava sem carga. Sem problema, encostamos a CB500 perto do carro do Ceconi, conectamos uns fios nas baterias, na famosa chupeta, e a CB pegou, era só charme, não poderia deixar isso nos atrapalhar, agora sim, tudo ok, pé na estrada.

Já na Rodovia Presidente Dutra, até a altura da cidade de Roseira, sem novidades, desse ponto em diante, parecia que estávamos na marginal Tiete em SP, tal o volume de carros, uns bem comportados e tolerantes, outros afoitos e inconseqüentes, tivemos que nos virar e sair deste tumulto. Nossa primeira parada foi em Lavrinhas, local onde sempre paramos, pedi licença aos colegas, mas aquele café com bolacha estava fazendo efeito. Recuperado e depois de um lanche rápido, seguimos para Piraí-RJ, chegando rapidamente a Barra do Pirai, demoramos para atravessar a cidade, perdemos um bom tempo, pelo menos conhecemos um local e uma estrada diferente, se nossos planos eram evitar passar por Barra Mansa e Volta Redonda, onde a passagem é demorada, acho que o tempo que perdemos com o transito nestas outras cidades foi o mesmo, senão maior.

Chegamos a BR 393, uma estrada em partes conhecida, aceleramos firme, e outra vez com movimento de caminhões e carros nos vimos engarrafados, o ritmo era lento e deveras perigoso, com calma e depois de intermináveis quilômetros chegamos a BR 040, uma parada para descanso e alimentação. Nisso situações inevitáveis acontecem, claro que já estamos acostumados e inclusive aguardando estas reações e perguntas, e confesso, é muito interessante. Estou falando dos olhares curiosos de outros viajantes, nossa indumentária, equipamentos, motos, botas e jaquetas são totalmente discretos e sem apetrechos, mas o fato é que viajar de moto chama a atenção, para as crianças somos uma grande brincadeira, entre acenos, beijos lançados e pequenos olhares curiosos esses pequenos criam um mundo de imaginação, onde o cavaleiro errante hoje é o motociclista, e o fiel corcel é uma mágica maquina de aço, os mais velhos sempre com um sorriso querem saber detalhes sobre a viajem, as maquinas (motos) e equipamentos, dizem que no tempo deles também tiveram boas maquinas, Norton, Harley e inclusive Vespas e Lambretas, este frisson causado pela nossa presença é um diferencial da viagem de moto, por mais que você esteja fazendo uma grande viajem, se estiver de carro, duvido que alguém se aproxime e pergunte para onde vai.

Seguindo pela BR 040, uma rodovia duplicada quase que na totalidade, agora sim, podíamos ter nosso ritmo de viagem, a estrada com longas subidas e conseqüentemente descidas, serpenteada por muitas curvas, num vai e vem delicioso, com alguns trechos em obras, onde redobramos a atenção, sem grandes transtornos e 200 km depois chegamos a Conselheiro Lafaiete onde nos defrontamos com a Estrada Real e suas curvas. Chegamos em Ouro Branco no meio da tarde, o difícil foi achar o local do evento, uma vez lá, Ceconi e Maga seguiram para uma pousada, eu fiquei no evento, fiz a opção de desfrutar do camping, onde poderia ter uma melhor noção e participação do encontro. Dito e feito puxei assunto com o Célio, motociclista de BH, pilota uma Shadow, cara muito legal, meu celular não funcionava, e ele gentilmente me emprestou o dele (valeu Célio !), fizemos inclusive uma reunião de condomínio para decidir o melhor posicionamento das barracas, para não atrapalhar o fluxo de pessoas e motos, galera muito legal e comunicativa.

Tomei um banho, arrumei minhas tralhas (coisas), enquanto esperava a galera para jantar, curti o visual maravilhoso de Ouro Branco, incrustada ao pé de uma suntuosa formação montanhosa, extremamente íngreme, o evento bem localizado, num local amplo, a beira de um lago muito bonito era deveras inspirador, mas eu queria mesmo é jantar, e cadê o gaúcho (Ceconi) só falta ter dormido na pousada, e meu celular não funciona, com um pouco mais de paciência eles chegaram, jantamos no restaurante (dentro do evento) uma boa e tradicional comida mineira, entre sorrisos e conversas, atormentando a garçonete com nossas brincadeiras e trocadilhos, tivemos uma boa e merecida refeição depois de quase 600 km rodados.

Procurei o Rogério, um dos organizadores do evento, com o qual tinha entrado em contato anteriormente, sabia que seriamos bem recebidos, não poderia deixar de agradecer, o localizamos numa das tendas principais, uma confraternização geral (valeu Rogério !), um evento da melhor qualidade. Entre cervejas e voltas pelo evento, lá pelas 19hs, a rapaziada começou a dar uma debandada, caiu um pouco o ritmo, claro que a turma da região foi se preparar para virar a noite, Ceconi e Maga foram para pousada, combinamos de nos encontrar no dia seguinte, eu me recolhi a minha espaçosa (?) barraca para um merecido cochilo. Acordei eram umas 11 horas (da noite) a banda (grupo) que se apresentava no palco fazia a sua parte com musicas de boa qualidade, tranquei a barraca (com cadeado) e fui dar uma volta. O evento outrora morno, agora estava lotado, entre mineiros, cariocas, goianos e outras galeras, passei a noite, me recolhi quase às 2hs da madrugada, antes das 6hs o sol já iluminava as barracas, levantei e comecei a desfazer o acampamento enquanto aguardava o café da manha fornecido pela organização.

Segundo Dia - Entre uma conversa e outra, troca de e-mail e telefones, o dia foi raiando, o café foi servido, tudo legal, quando se aproxima um garoto e por várias vezes troca olhares com a Falcon, também notei que ele era surdo-mudo, mas aquele brilho em seus olhos diziam todas as palavras que eu precisava ouvir. Convidei-o a sentar-se na moto, ensinei a ligar, tocar buzina e todos os comandos, tirei uma foto dele em cima da moto, assim que revelar o filme envio uma cópia. Este fato muito me satisfez, de alguma forma espero ter deixado o dia dele mais feliz, com certeza o meu ficou extremamente iluminado. Maga e Ceconi chegaram pontualmente na hora combinada, 9hs, mais uma volta no evento, nos despedimos dos organizadores, na pessoa do Pedrinho, gente muito boa.

Estrada Real novamente, agora uma paisagem linda, subindo em direção a Ouro Preto, a estrada é muito sinuosa, cortando montanhas e beirando alguns penhascos, imaginar que em menos de um século todo este percurso era feito a cavalo ou no lombo do burro, é uma sensação diferente. Cada estrada tem a sua magia, a Estrada Real tem a sua encravada na história que a construiu. Visita rápida a Ouro Preto, algumas fotos, uma vista geral e seguimos, nosso destino ainda estava a alguns quilômetros. Seguindo em direção a Santa Bárbara, nos deparamos com a Serra do Espinhaço, logo vi o por quê do nome, bem próximo a estrada, pronunciam-se verticalmente a nossa esquerda um maciço de pedras e rochas, uma gigantesca muralha com cumes pontiagudos, um espetáculo impar.

Paramos em Santa Bárbara para reabastecimento e almoço, de novo aquela comida mineira em fogão à lenha e com um preço bem convidativo. Neste lugar, posto de gasolina e restaurante, duas coisas me prenderam a atenção. A primeira logo que chegamos, onde um VW Gol, tocava musicas de gosto duvidoso em um volume ensurdecedor, e o pior, os proprietários (do carro, do posto e do restaurante) não se manifestavam, tomara que ele consiga manter a clientela. Outro item que chamou atenção foi o ralo do banheiro, que era iluminado, isso mesmo, como o restaurante era lançado sobre uma laje, a luz (do dia ou de lâmpadas) iluminava o ralo que se projetava abaixo da laje, parece algo sem importância comentado neste momento, mas quando se esta em viajem pelo sertão mineiro (ou deste Brasil querido) estas situações inusitadas merecem no mínimo um comentário, e que, com certeza foi algo diferente, isso foi.

Em poucos quilômetros e uma rotatória, viramos a esquerda, alguns outros poucos quilômetros e chegamos a portaria do Santuário, algumas instruções o cadastro das motos e seguimos. Agora eu não acelerava mais a Falcon, ela ia sozinha, a cada curva, a cada aclive ou declive, enquanto a maquina seguia imponente, serpenteando a estrada, quantas cenas foram reavivadas na minha memória, lembro-me perfeitamente de uma de nossas idas ao “Rancho do Luiz Peão” que nada mais era do que uma tapera de pau-a-pique perdida na beira da represa em Redenção da Serra-SP, longe de tudo e de todos, sem água, luz ou qualquer recurso, onde passávamos o dia nadando, pescando, virando morro, entre grotas e nascentes, pulando cercas de arame farpado. Numa daquelas noites enluaradas conversávamos sobre o Caraça, nossa dificuldade alem de financeira, seria de deslocamento, sem habilitação (pela idade), excursão, nem pensar, este lugar (Caraça) não existia no mapa, guardamos este sonho (projeto), realizamos outros tantos, assim passamos boa parte de nossa adolescência, nestes momentos fantásticos, à beira da represa e acompanhado dos amigos.

Levanto a viseira do capacete, o ar fresco na mata invade meu rosto, encho o peito e grito alto, emparelho as motos, serro o punho esquerdo e o trago perto do ombro em sinal de uma particular vitória, outra curva a direita e avisto a igreja, solto as mãos do guidão, abro os braços e em plenitude sigo voando no embalo da Falcon, mais próximo do Santuário, passamos por uma ponte estreita, me seguro para não acelerar forte a maquina, o movimento de pessoas é grande, estamos em pleno domingo, por um trecho de estrada ladeado e sombreado por imensos pinheiros, chegamos ao destino, paro na recepção e não desço da moto, fico a observar o que me cerca, depois de tanto tempo, estamos no Caraça.

Apresento-me na recepção, com as chaves dos quartos seguimos pelos corredores, nossa presença desperta olhares seguindo pelo piso de tábua corrida, nossas botas fazem seu papel no quesito barulho, é um toc-toc que não dá para disfarçar. A Maga escolhe o quarto (dela e do Ceconi), fico com o menor, mas de frente para mata, combinamos que em 30min. iríamos em direção ao Banho do Belchior, nosso principal objetivo era fotografar a formação rochosa que dá nome ao Santuário, o Caraça.

Localizar os pontos no mapa fornecido pela recepção, não posso dizer que foi fácil, agora já familiarizado com a forma de comunicação, digo que quase “pagamos um mico”, mas umas placas (de localização) a mais ajudariam. Descendo a rua (a pé) pela estrada de acesso, em sentido contrario, chegamos a uma porteira sem maiores informações, e agora, é aqui o caminho? Nessas horas o que predomina é a intuição, e ela não costuma falhar, seguimos pela estrada pós-porteira, num trecho de poucas dificuldades onde a conversa rolava solta, a Maga que era o alvo, e entre sorrisos vislumbrávamos a grandiosidade do Santuário. Paramos várias vezes para fotos e observações, nos esbaldamos em admirar as formações rochosas, Magali enxergava nas rochas desenhos de macacos e outros bichos, até o ET de Varginha ela viu, menos a face do gigante do Caraça, esta ela demorou a ver (acho que não conseguiu até agora !).

Trilha fácil até o Banho do Belchior, apenas alguns enormes cupinzeiros bem no meio da trilha, cercada de mata por todos os lados, caminhávamos como num túnel verde, chegando ao local, a água gelada não estava convidativa, perguntar se eu iria entrar era brincadeira, antes de piscar os olhos duas vezes, já estava dentro d’água, amarelada pelo teor de ferro o que também proporciona sua limpidez, as águas estavam calmas, final de inverno, época de seca, as triviais fotos e comentários, à noite chegando, hora de ir.

Voltamos conversando com o Marcos e Norma, casal radicado em São Paulo Capital, galera boa de conversa, rapidamente (agora sem parada para fotos) chegamos ao asfalto, subimos de volta ao santuário, voltamos para nossos quartos agendando para as 18:30 nossa primeira refeição no Santuário. Estar no Caraça é diferente de qualquer lugar, a cada cômodo, escada ou sala existe uma historia que perfaz um todo, conhecer um pouco dela é necessário

A origem do nome Caraça está vinculada à chegada dos primeiros bandeirantes durante o século XVIII. Ao se depararem com a formação rochosa, que lembra bastante o formato do rosto de um gigante adormecido, trataram logo de identificar esta região com o atual nome. A razão pela qual o Santuário ter sido erguido num lugar tão isolado e de difícil acesso ainda é um mistério.

A criação do Santuário do Caraça teve inicio a partir da fundação de uma ermida e um convento no estilo barroco, em 1774, pelo Irmão Lourenço, cuja origem é bastante desconhecida. Ao morrer em 1819, o Irmão doou em testamento a sesmaria do Caraça e o templo ao rei Dom João VI. Neste documento o Irmão Lourenço incluiu um pedido para a construção de um colégio no local, que logo mais tarde foi doado aos Missionários Lazaristas, que criaram o primeiro seminário e a primeira igreja neogótica do Brasil.

Por ali passaram mais de 10.000 estudantes, muitos deles com destacada posição na sociedade, até que em 28 de maio de 1968, um grave incêndio destruiu os três andares do edifício, juntamente com o teatro e a biblioteca com exemplares bastante raros. Somente a ermida de Nossa Senhora Mãe dos Homens permaneceu intacta e assim foram interrompidas as atividades do famoso colégio interno.

Irmão Lourenço - Existe no Caraça um verdadeiro mistério com relação à origem de seu fundador, o Irmão Lourenço. Diz a historia que este Irmão chamado de Lourenço de Nossa Senhora teria sido Carlos Mendonça Távora, um perseguido em Portugal. Acontece que a família Távora tinha sido condenada em função de um atentado, em 1758, contra o rei Dom José I. Essa família foi duramente perseguida pelo Marquês de Pombal e tiveram onze de seus membros queimados em praça pública. Somente um deles teria fugido para o Brasil. Os padres lazaristas nunca encontraram algum documento que revelasse com exatidão quando e onde aquele português chegou ao Brasil.

O Parque Natural do Caraça está localizado no município de Catas Altas, na micro região siderúrgica de MG, a 120 km de Belo Horizonte. Sua extensão de 11.233 hectares está dividida entre os ecossistemas da Mata Atlântica e do Cerrado, visto que representa uma área de transição. Sua altitude varia entre 720 a 2.070 metros, onde está localizado o Pico do Sol considerado o ponto mais alto da região e da Serra do Espinhaço. O clima da região é bastante imprevisível, sofrendo bastantes alterações ao longo do dia. Segundo alguns geólogos, a Serra do Caraça apresenta a mais antiga superfície de aplainamento não fossilizado do Brasil. Atualmente vários pesquisadores continuam desvendando o rico potencial natural da região, onde já foram encontradas mais de 200 espécies de orquídeas. A vegetação das baixadas e encostas são constituídas de candeias, coco macaúba, angicos, ipês amarelos, dentre outros, que são interrompidas constantemente por escarpas e afloramentos rochosos. A grande diversidade vegetal possibilitou o desenvolvimento de uma fauna muito rica, onde existem várias espécies de aves de canto, além de outros animais, como o Tamanduá Mirim, Paca, Quati, Lobo-Guará, Suçuarana e outros.

Quanto a nossa janta, o refeitório também merece destaque, sendo que é o mesmo utilizado desde o inicio do colégio, suas paredes são repletas de fotos de seus administradores, destaca-se também um quadro mural, pintado a mando do Imperador, com a vista frontal do colégio, este quadro é de uma perfeição e ricos detalhes. Fogão à lenha e comida típica, enchemos a pança, doce com queijo de sobremesa, cafezinho, tudo servido a americana, tudo nota 10.

Algumas conversas e sorrisos, e estamos na frente da igreja a esperar o Guará ou Lobo-Guará que todas as noites vem comer (carne) na frente da igreja, acostumado assim desde muito tempo. Não sei dizer bem se isto é algo bom, alguns até dizem que ele tornou-se um vira-lata, o que sei é que a expectativa pela sua chegada é algo bem diferente, ser atacado ou levar dentadas estava fora de cogitação, ele (Guará) tem mais medo dos homens do que nós dele, mesmo assim estar de frente a um animal selvagem deste porte causa uma expectativa. As horas passam e nada do lobo, o movimento foi intenso no parque e em frente a igreja, onde esperávamos nosso convidado, a quantidade de pessoas não o deixava aproximar-se. Nisso um garoto aponta para o alto da montanha e diz ver uma luz piscando (deve ser o ET de Varginha que a Maga viu), um alvoroço se forma, agora é que o lobo não vem, mais alguns minutos se seguem e agora vemos (todos) luzes vindas do cruzeiro, estava na cara que era uma lanterna, mas o porque enviava sinais, seria alguém em perigo? Conferimos nosso(s) grupo(s) e todos presentes, quem seria? Um dos monitores foi resgatá-los, não estavam perdidos, apenas fazendo graça, não sabiam o risco que corriam, neste local o socorro é difícil, não há bombeiros ou guardas-florestais, faltou discernimento, mas tudo acabou bem.

Nosso convidado, com toda esta bagunça, apareceu já tarde da noite, veio sorrateiro pelo estacionamento, olhou várias vezes para trás, como quem diz que a qualquer momento ou aceno de perigo, em um salto e já estaria longe, mas que nada, todos permaneciam imóveis enquanto ele era atraído pelas carnes fornecidas por um dos hospedes (mais acostumado) que as jogava no chão e chamava por guará-guará. Rápido como ele veio, assim ele se foi, havia muita gente, agora vê-lo só mais tarde. Tínhamos duas opções, ir dormir, e deixar o Guará para o dia seguinte ou esperar pelo Guará seja a hora que for.

Cada dia tem o seu quilometro, e eu queria realmente um melhor registro deste nosso encontro com o lobo, para o dia seguinte tudo poderia acontecer, inclusive chuva, mais pessoas ou simplesmente ele não aparecer. Pacientemente esperamos, e fomos gratamente recompensados, já próximos da meia noite, agora com tudo mais calmo e com poucas pessoas, o lobo ressurgiu, agora mais confiante, nos maravilhou com sua presença, degustou sua janta entre fotos e filmagens, parecia um artista, mas com as enormes orelhas bem erguidas, sempre sorrateiro e esperto, um ser livre, selvagem.

Fui dormir, antes uma consulta ao mapa para verificar o caminho até a Bocaina, local que combinamos visitar no dia seguinte, mas o nome Cascatona estava me fascinando, já a conhecia por fotos, estudei o trajeto e denotei as dificuldades, uma trilha difícil, e ainda tínhamos o quesito horário, chegar (de volta) após as 13:30hs seria ficar sem almoço, passaríamos também pelo cruzeiro, um ótimo lugar para fotos, enfim desenhava-se uma proposta diferente, mais desgastante fisicamente, só que bem mais desafiadora, deixei que meus sonhos (estava quase dormindo) tomassem a melhor decisão. Terceiro Dia.

Não acreditei quando meus olhos abriram às 5:30 da manhã, contava em dormir até às 8hs, mas aquele sininho da Igreja tocando a cada 15minutos parecia que entrava dentro da minha cabeça, se não pode vencê-los, junte-se a eles, foi o que fiz, troquei de roupa e fui ver o amanhecer no Santuário do Caraça.

Tudo com neblina, mal enxergava a mata que cerca o Santuário, pássaros dos mais diversos cantos, e eu parecia um fantasma a perambular pelos arredores. O dia foi surgindo, com ele o Astro Rei Sol espantando a neblina, aproveitei para boas fotos, esquilos, jacus, uma variedade de pássaros, destes um chamou-me a atenção pelo seu canto, parecia um pequeno piano elétrico, como se rapidamente passássemos os dedos pelo teclado e terminando num “pon” agudo, pensei a principio que seria o despertador de alguém, mas ele ficava mudando de lugar. E que eu saiba despertador não sobe em arvore! Fui procurar o individuo no meio do mato, encontrei outros tantos pássaros, mas aquele pianista, não consegui enxergá-lo, só ouvi-lo. Quando virei as costas para retornar ao Santuário, ele (o pássaro pianista) começou um solo espetacular, a mata calou-se, podia vê-lo numa palmeira bem destacada, era um pássaro formoso, todo azul, cantou e cantarolou a vontade, quando terminou aplaudi e foi embora, se alguém viu não deve ter entendido, eu sei que o artista pianista entendeu meu agradecimento.

Cadê a galera para o café, meu estomago já estava reclamando, já eram quase 8hs, achei (ou eles me acharam) o Ceconi e a Maga, fomos a outro refeitório, bem menor, e sem reforma, agora eu entendia sobre a magia que o colega Alfredo falava, vi a estrutura original do prédio formada por imensas vigas (de madeira) lançadas, dando sustentação a andares superiores ou ao telhado, o local com pouca iluminação natural, um fogão a lenha, chão de barro queimado (mas tudo muito limpo) remeteram-me aos primórdios desta instituição, bela viagem, um lugar diferenciado. Cada qual prepara sua guloseima no fogão a lenha, pão, ovos, queijo, pão de queijo, frutas, café, leite, suco, acho que os administradores do local sabem que a turma vai enfrentar longas trilhas, portanto reforçam na alimentação.

Troquei uma idéia com o pessoal que estava tomando café, perguntei a respeito da Cascatona, todos foram unânimes em dizer que a trilha era pesada, falei com meus companheiros, o Ceconi topou, a Maga diz que iria até o Cruzeiro e voltaria, tudo combinado, equipamento fotográfico, filmadora, água, tudo na mochila, seguimos no passo rápido, não conhecíamos a trilha e pretendíamos voltar para o almoço. Posso dizer que a trilha até o Cruzeiro foi de risco baixo/médio, uns dois quilômetros, algumas pedras bem pontiagudas e salientes, uma escadinha enjoada e chegamos ao Cruzeiro. Uma vista panorâmica das melhores, o local não é muito alto, mas bem localizado, permitiu belas fotos. Nossa estada foi rápida, descemos e para minha surpresa a Maga decidiu nos acompanhar até a Cascatona no pé na estrada.

Seguíamos ligeiro nos 6km de trilha, o mapa nos trazia mais dúvidas que orientações, mesmo com indagações sobre nossa localização, curtimos demais a trilha, muitos sorrisos, risadas, piadas e é claro, atormentando a vida da Maga, quando o barulho da água começa a ecoar mais forte a mata se abre, estamos paralelos a Cachoeira e seus 80 metros de queda, beirando um precipício que se forma entre duas altas montanhas, formando mais a frente um vale bem profundo, deste local não consigo avistar a queda d´agua, sei que está à minha direita, não só pelo barulho, mas como também pelo perigoso precipício, descemos pela trilha até quase a base da Cascatona, e para minha surpresa uma rampa de pedra de uns 30 ou 40 metros era o nosso desafio final, descemos literalmente escorregando, apoiados pelas mãos e pés, quando não sentados, foi uma experiência única. Finalmente a Cascatona, linda, linda, com “pouco” volume de água, assim podiamos nos banhar mais calmamente. Papo gostoso com a galera de BH que já estava no local, o bom astral destas águas é contagiante.

O retorno foi muito acelerado, subir primeiro aquela big rampa, parecia o “homem-aranha”, a Maga que descansou bastante na cachoeira estava a mil, eu e Ceconi estávamos bem cansados, fica o registro do cheiro de “flores” que encontramos na volta, perfume singular. Pouco mais de uma hora e estávamos no Santuário, ainda com tempo para um bom banho e almoço, à tarde nos dedicamos as atrações mais próximas, como museu, pátio, Igreja, calvário, um bate-papo com a galera hospedada. Quase à noite, uma geral nas motos, no dia seguinte elas seriam o enfoque principal.

Com as maquinas ok, arrumei minha tralha, organizei minhas coisas, era só curtir a noite, um bom sono e pela manhã estaríamos na estrada. Após a janta Ceconi e Maga foram à missa, eu fiquei de prosa, conversei muito com um dos guias do parque, João, este há mais de quarenta anos freqüenta o Caraça, como visitante ou funcionário, conhece minúcias e histórias, pessoa de um senso critico muito apurado, sabe diferenciar muito bem as fases do Caraça, inclusive as viveu a pleno, dentre suas historias, uma chamou-me a atenção

Conta ele que anos atrás, foi procurado por uma senhora que desenhou um símbolo no chão de areia, perguntou se ele já havia visto aquele símbolo, ele respondeu que poderia ter visto, mas que precisava de mais detalhes. A senhora relatou que quando os pais dela ainda eram namorados, vieram ao Caraça, e o pai dela com auxilio de um canivete ou faca, incrustou numa rocha esta insígnia com as iniciais dele e da namorada (futura esposa) e conseqüentemente aquele brasão ficou como símbolo da família, passados anos, e com o falecimento dos pais, ela resolveu resgatar esta historia, mas já havia rodado por várias grutas e encostas e não havia localizado o tal símbolo. João disse que lembrava de algo, e que poderia ser na Gruta de Lourdes a alguns quilômetros do Santuário, se dirigiram ao local, quando já dentro da Gruta, numa rocha pouco afastada e de difícil acesso, ele João começou a raspar o limo e lodo de uma das faces da pedra, aos poucos o símbolo foi aparecendo, era verdade, o pai não havia mentido, a senhora muito emocionada é claro, pediu alguns momentos de privacidade antes de retornarem ao Santuário, nestas e noutras histórias está incrustada a magia do Caraça. Vi novamente o Guará, nos despedimos, ou melhor, dei um até logo, amanha temos outros quilômetros.

Quarto dia - Estou de pé às 6hs, começam os preparativos para nosso retorno, minha bagagem é pesada, tem barraca, saco de dormir, uma pequena lona, roupa de chuva, equipamentos sobressalentes para moto, o baú com minha tralha, e tudo tem que se ajeitar na Falcon, um processo não muito rápido, que é executado com prazer e capricho, afinal ficar parando na estrada para arrumar a bagagem é um desproposito, alem do tempo perdido. Escuto um toc-toc no corredor, com certeza é o Ceconi arrumando a bagagem, revisamos nosso trajeto, agora iríamos sentido BH pela BR 381 até a Fernão Dias, percorrendo quase toda a rodovia sentido São Paulo, já próximos a capital, seguiríamos a esquerda para Itajubá, e pelo sul de Minas, entraríamos no Vale do Paraíba por Santo Antonio do Pinhal, mais de 600km.

Tudo arrumado, café no estomago, nos despedimos dos amigos, mineiros, paulistanos e a galera em geral, achei interessante que muitos ficaram assistindo nossa partida, num misto de afeto, curiosidade e admiração por nossa ousadia. Os amigos Marcos e Norma partiram um pouco antes numa linda Pajero, tinha certeza que apesar de ritmos de viajem diferentes, nos encontraríamos na viajem, aquela intuição estava me dizendo e ela não falha. Despedi-me de todos, combinei com a Maria (recepcionista) que passaria em Aparecida, na Basílica, e faria uma oração por ela, melhor farei por todos com os quais convivi nestes dias fantásticos. Motos em movimento, agora cada quilometro era um a menos em direção de casa, a Falcon estava uma delicia, depois de dois dias de descanso parecia que ela estava com um apetite pela estrada, o sol ainda um pouco tímido iluminava e descortinava nosso caminho, o frio entrando pelo capacete fazia sentir-me mais vivo e revigorado, passamos rapidamente pela portaria, em poucos minutos estávamos na estrada principal.

Apenas algumas lombadas incomodavam, já na BR 381, aquele já conhecido movimento, as curvas também apresentavam umas costelas transversais que dificultavam o equilíbrio da moto, e para ajudar, pode até parecer bobagem, mas a luz de freio da CB500 do Ceconi ficava acesa constantemente, assim eu perdia o tempo certo da frenagem dele, mantive uma distancia maior e seguimos em segurança até BH. Cruzamos a cidade com tranqüilidade, comparando com a avenida Brasil no RJ ou as marginais em SP. Passar por BH foi legal, quando de umas 11hs da manhã saímos do movimento urbano, paramos já na Fernão Dias, gasolina, pão de queijo, suco de laranja, nos recompomos e seguimos viagem, não conhecia a Fernão Dias, já havia percorrido um pequeno trecho não duplicado dentro do estado de SP, não havia gostado claro, agora vejo que ela tem uns trechos ótimos, com curvas de alta e pequenas retas bem pavimentadas e até com pouco transito, foi uma grata e deliciosa surpresa, rodamos uns 150km, estávamos encostando num posto para reabastecimento quando um carro nos passa com os faróis e piscas ligados, era a Pajero do Marcos e da Norma, sabia que os encontraria na estrada, acenei com muita alegria, eles responderam e seguiram viagem, apesar de não terem parado ou trocado palavras este encontro fez-me muito bem, eles nos transmitiram uma excelente energia, nas voltas do mundo, um dia nos veremos novamente, mais que isso, de novo minha intuição manifestou-se corretamente. Esta parada foi mais demorada que o previsto, mas não brigo com o tempo, somos amigos, e é claro o bom humor sempre impera. Nisso pára um caro com um cachorrinho branco no banco de trás, late que é uma farra, olho de novo e vejo que não é um, são dois, não, não, são três bolas brancas latindo, conto para Maga que já vi um destes matar um Pitbull, ela não acredita, digo que é verdade, matou o Pitbull engasgado, quase apanhei !

Rachamos pela rodovia Fernão Dias, giro alto, ritmo ótimo, a estrada ajudava, outros 150 km e deixamos a rodovia, não sem antes parar para uma foto com o velho Fernão (estatua claro !), decidimos seguir por Cachoeira de Minas o que o mapa não dizia era que a estrada era sem asfalto, apenas 16km, para Falcon com a suspensão alta, sem problemas, para CB judiou um pouco, mas como disse foi a oportunidade de conhecer uma estrada diferente, logo o asfalto e a Serra da Mantiqueira, Paraisópolis, São Bento e avisto a Pedra do Baú, um maciço que se projeta acima da cidade fazendo a divisa com Campos do Jordão, mandei um beijão pra pedra (já estava ficando meio louco), a que tempo não a escalo, acho que logo nos veremos.

O trânsito do feriado deixava a estrada lenta, sem lugares para ultrapassagens seguras, seguimos nesse ritmo até Santo Antonio, cruzamos a cidade e começamos a descida da serra, a visão do Vale me encheu, agora estava em casa, cada curva era uma velha conhecida, a turma que voltava de Campos do Jordão que me desculpe, mas dei seta para esquerda e giro na maquina, sempre com segurança, tinha plena ciência de que a maioria dos acidentes acontece perto do destino, paramos na rotatória de acesso a Tremembé, ali nos despedimos. Valeu Ceconi ! Valeu Maga ! Agradeci a companhia deles, pedi para seguirem com cuidado, agora rumava sozinho. Atravessei Tremembé rapidamente, somente mais alguns quilômetros e a viagem na estrada acabaria, que pena, já a havia (a viagem) registrado na memória e nela esta viagem continuará por muito tempo. Estava mais que cansado, havia dormido pouco e caminhado muito nos últimos dias, e depois de 10hs de estrada queria é chegar logo e em segurança. Sigo pelos bairros, agora só falta um farol e chego em casa, avisto de longe um fusca “verde” parado bem no meio da rua, mesmo com o farol aberto ele não anda, não penso duas vezes, inclino a moto para esquerda e passo o carro (sai fusca!), mais alguns metros duas esquinas e estou em casa. Paro a moto em frente ao portão e respiro aliviado com alegria e satisfação, olho pelo retrovisor e vejo o meu garupa (aquele onipotente e onipresente) sinto que com carinho ele toca meu ombro, agradeço por tudo ter saído mais que certo, sem apertos ou apreços. Quando Ele me pergunta: - Quando serás a próxima? Respondo: - Mas és tu, Pai, que tudo sabes, como hei eu de saber? Ele completa: - Quando abrires o mapa sobre a mesa, filho, puxas mais uma cadeira, onde estarei a teu lado. (como sempre esteve) Envolto em todo o fascínio e sozinho em casa, não liguei a TV ou procurei informações sobre estes últimos dias, a viagem e seus acontecimentos me preenchiam, apoderei-me de uma maçã, coloquei (para ouvir) o meu CD predileto e revivi vários momentos, dos mais fúteis aos mais marcantes, todos tem (tiveram) a sua importância, adormeci envolto nas musicas e nas lembranças, minha única certeza é de que voltarei.

Caraça, me aguarde !

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