Viagem pela Europa
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De Caracas ao Rio de Janeiro

“Uma viagem solitária de moto através de 6 países da América do Sul – Mar a Jun/06 – 13.450 km”

mapa Trajeto

Providências Iniciais

Lisboa, 17 Março 2006. São 11:00 da manhã e estou sentado no lugar 20 A do Airbus 310 da TAP com destino a Caracas-Venezuela. Ontem foi Domingo de Páscoa, o sabor das amêndoas e o reencontro familiar ainda estão frescos na memória, quando o comandante Oliveira Mendes interrompe os meus pensamentos para anunciar um pequeno atraso devido a passageiros em falta e um voo de duração aproximada a oito horas e meia. Mas não é de aviões que vou falar até porque esta revista fala de motos, vou sim explicar o que faço aqui sentado. Um ano antes tinha trocado a minha Transalp 600 por uma BMW GS 1150, durante os meses que se seguiram comecei a encarar o viajar de moto de outro modo. A viagem mais longa que jamais tinha feito foi Lisboa-Tavira-Lisboa numa Diversion 600 emprestada por um amigo, uns míseros 350 km para cada lado. Com o seu conforto e segurança a GS 1150 ganhou a minha confiança e respeito como se de uma amizade se tratasse, apercebi-me que possuía a máquina de eleição de aventureiros que viajam para destinos desconhecidos. Aí começou o sonho A velha Europa parecia o destino mais natural! Mas era já bem conhecido do interrail feito na juventude de outras viagens de carro, alem disso é muito cara, segura e as estradas são excelentes o que não seria uma aventura mas apenas mais uma viagem. Decidi que iria para a América do Sul que me era totalmente desconhecida mas que tem um passado histórico muito rico e uma cultura que sempre me despertou interesse. A minha maior fonte de informação foi a Internet aí li relatos de viagens efectuadas por alemães, australianos, suíços e até portugueses onde colhi a informação que achei relevante filtrando muitos disparates e exageros e focando-me no que o bom senso me apontava. Passados uns meses a ideia germinava e tornava-se projecto, tracei uma rota semelhante à famosa viagem do Che Guevara relatada em Diários de Motocicleta mas no sentido inverso, de Caracas até ao Rio de Janeiro.

Aí quando surgiu a oportunidade de me ausentar 6 semanas fiz os contactos com a TAP para assegurar o transporte da moto, foi negociado o valor do frete, encomendei o fato, capacete, luvas, cinta e passa montanhas um compressor de ar e um jogo de ferramenta pequeno. Fizeram a revisão completa à moto e colocaram dois pneus novos que me teriam de durar os 13.000km estimados. Como não levava mapas não achei muito útil o saco de depósito então optei por comprar um saco estanque daqueles de canoagem onde cabia toda a roupa e assentava como uma luva sobre o assento do pendura. O único instrumento de navegação que instalei foi uma bússola que infelizmente não aguentou toda a viagem devido à vibração do motor com gasolina de 84 octanas. O GPS não me teria ajudado em absolutamente nada sendo apenas mais um chamariz para os amigos do alheio e um peso no orçamento que já ultrapassava os 6.000€. Comprei a minha passagem e tratei de embalar e entregar a moto no aeroporto três dias antes da partida sem gasolina, com a bateria desligada e pouco ar nos pneus. Os papéis de alfândega foram conseguidos depois de algum esforço e de alguns € pagos ao despachante.

Venezuela

Quando escrevia estas linhas já a moto estava à minha espera em Caracas. Quando cheguei já era demasiado tarde para retirar a moto nesse dia, no dia seguinte voltei à zona de carga do aeroporto de Maquetia nos arredores de Caracas para tentar a minha sorte com a ajuda do Alberto da TAP de Evert o despachante e os seus dois funcionários Jesus e German. Andámos do escritório para o edifício da alfandega durante três dias debaixo de um calor húmido de 30ºC, num carro americano dos anos 70 com motor V6 cujo ar condicionado funcionava muito bem. Até que finalmente conseguirmos a autorização de permanência temporária no território sem a qual a moto não podia sair do armazém. Quinta-feira dia 20 foi-me entregue a moto e após meia hora já tinha aberto o caixote, montado o para brisas, retrovisores e enchido os pneus. Estava pronto para seguir viagem com a bagagem toda arrumada e cheio de vontade de devorar estrada A primeira surpresa foi o preço da gasolina que é ridículo 3,6 cêntimos de euro cada litro (sem chumbo 95), a gasolina mais barata do mundo! Com a gasolina quase de borla e sem pagar portagens senti-me o motard mais feliz do mundo! Mas Caracas está longe de ser um paraíso o transito é de loucos, os condutores não respeitam nada e a queda recente de um enorme viaduto por erros de construção na auto-estrada que liga o aeroporto à cidade provoca longas filas de transito onde um exercito de vendedores de ocasião dificultam a passagem da moto entre os veículos parados. Caracas está rodeada de pobreza, favelas que sobem os montes que delimitam a cidade manchando a paisagem, esta pobreza contrasta com os edifícios altos construídos nos anos 70 arranha-céus ao estilo americano. As políticas de Hugo Chavez aumentaram muito a pobreza e a violência está em escalada, os crimes violentos, raptos, assassinatos, e corrupção são a realidade e não aparecem apenas nos noticiários A vontade que tive foi de desaparecer dali prego a fundo e assim foi, entre 140 e 160km/h pelas boas estradas Venezuelanas esquivando-me aqui e ali de algum condutor que se atirava para o meio da via de forma totalmente imprevisível e de alguns acidentes que infelizmente pude testemunhar. A paisagem é monótona e agreste pintada de amarelo seco. Depois de Barquisímeto encontrei uma estrada fechada por um enorme desabamento que me permitiu fazer 60km totalmente sozinho numa estrada ladeada de cana do açúcar a perder de vista até chegar ao local onde a estrada terminava e apenas existia um carreiro para passarem pessoas mas que a moto sem hesitar ultrapassou observada pelos trabalhadores surpreendidos que me brindaram com um sorriso de cumplicidade. Até chegar às montanhas onde se inicia a cordilheira dos andes pouco a salientar. Daqui para a frente a estrada torna-se mais interessante tanto ao nível da condução como de paisagem mas mais importante são as temperaturas que finalmente descem à medida que subo em altitude. 700 Km efectuados com temperaturas acima dos 30 graus são desgastantes e deixaram-me totalmente desidratado. Descansei um dia em Mérida onde não pude subir ao Pico Bolívar porque o teleférico tinha a electricidade cortada pelo governo e assim perdi o pico mais alto da Venezuela O teleférico, que possui 4 etapas, é o mais longo e o mais alto do mundo, com uma subida de 12,5 km! Chega a uma altura de 4765 metros sobre o nível do mar.

Colômbia

No dia seguinte segui para a Colômbia na verdade estava com medo mas também com muita vontade de conhecer este pais, lembro que este é o país que os motociclistas que atravessam a América normalmente evitam despachando as suas motos de barco ou avião para o equador ou para o Panamá! Os 250km que me separavam da fronteira levaram cinco horas a serem percorridos, à medida que me aproximava da Colômbia as estradas pioravam. Quando cheguei a STº António era meio-dia paguei a taxa de saída da Venezuela atravessei a fronteira e carimbei a entrada na Colômbia onde me deram um visto de 60 dias sem dificuldade. Na Colômbia o fuso horário adianta uma hora e os serviços de alfândega tinham acabado de encerrar às 13:00, ainda ligaram a confirmar mas já ninguém atendeu… Conclusão fiquei retido até segunda-feira em Cúcuta. Arriscar atravessar a Colômbia sem a documentação era o mesmo que ver a mota confiscada e ir para à prisão por contrabando de veículos. Na segunda-feira tratei de declarar a saída da moto da Venezuela e a sua entrada na Colômbia, onde fui obrigado a efectuar um seguro obrigatório de responsabilidade civil. Após ver o seguro recusado em 3 correctoras acabei por pedir ajuda numa escola de condução onde uma rapariga de feições índias se ofereceu a ir comigo até onde me iriam aceitar fazer o seguro, mas quando viu a moto hesitou pois nunca tinha visto uma moto daquele tamanho e a custo lá se montou e me guiou pelo labirinto de ruas da cidade até dentro do escritório da seguradora. Assim me apercebi que as pessoas na Colômbia estão sempre dispostas a ajudar sem esperar nada em troca e com uma amabilidade que me deixou por vezes embaraçado por não saber como retribuir. A partir deste momento esse país não parou de me surpreender pela positiva, aqui conheci o povo mais simpático e atencioso de toda a viagem, as mulheres mais bonitas, a paisagem é linda a comida excelente e devido à baixa cotação do Peso tudo é barato quando se converte em Euros, e o melhor é a quase ausência de turistas principalmente os americanos que são uma verdadeira praga no Peru devido à fama de Machupichu. As cidades são relativamente seguras mas claro que até em Lisboa podemos ser assaltados. Nas estradas existe algum perigo mas nada comparado com o clima de medo que se viveu até 4 anos a trás e que deu a triste fama de país perigoso à Colômbia. A presença constante de militares com snipers e tanques na berma das estradas e os controles policiais a cada 20 km dão a sensação que existe perigo mas que a guerrilha e os grupos paramilitares estão controlados Na verdade senti mais segurança neste pais que na Venezuela e não hesito em recomendar a Colômbia como próximo destino de férias a quem queira mais que apenas descansar do trabalho. A capital Bogotá é a quarta maior cidade da América do sul com aproximadamente 7,5 milhões de habitantes e situada à altitude de 2.600 metros o clima é bastante incerto tanto chove como faz sol e as temperaturas amenas. O trânsito é caótico e os engarrafamentos não tem hora de ponta são permanentes! A solução é deslocar-se de Transmilenio, autocarros que circulam em carril reservado e que funciona como o nosso metro. Nas estradas os condutores são muito imprudentes e conduzem sempre fora da sua faixa, chegam a ultrapassar nas curvas sem qualquer visibilidade e nas rectas ultrapassam mesmo que venha outro carro de frente, normalmente cabem os três aproveitando as bermas…a solução é ir sempre a buzinar e por vezes parar fora da estrada.

Equador

No equador voltei a encontrar boas estradas e como o país é relativamente pequeno foi fácil atravessar. Infelizmente cobram algumas portagens na pan-americana mas com a gasolina a 45 cêntimos de euro nem custa pagar a portagem que é 50% de um automóvel. O nível de vida é mais alto que nos países vizinhos mas a introdução recente do dólar americano como moeda oficial tornou o país caro se comparado com a restante América do sul. Quito é uma cidade maravilhosa classificada como património mundial da UNESCO. Graças à altitude e localização o seu clima é razoavelmente constante, com uma temperatura em redor dos 21ºC ao longo do ano. Aqui conheci Ricardo Rocco presidente da federação de motociclismo que estava a organizar um salão de motociclismo e auto tuning nesse fim-de-semana para o qual me convidou. Ele também viaja de moto e está a dar a volta ao mundo pela paz. Nessa noite havia uma super festa na discoteca do seu irmão com as modelos todas do evento que tive de recusar para não comprometer a minha ida ao vulcão Cotopaxi na manhã seguinte, como o Equador é o país dos vulcões, seria pena não aproveitar para visitar um. No dia seguinte mesmo nos arredores de Quito subi ao Vulcão Cotopaxi com 5897 metros de altitude, o vulcão activo mais alto do mundo…

Peru

Quando cheguei ao peru estava exausto depois de ter rodado 750 km muitos deles em estradas de montanha. As boas estradas do equador e o clima fresco facilitaram a tarefa. Já em Tumbes estancia balnear do pacífico fiquei num agradável hotel sobre a praia onde fui atacado pelos mosquitos. Nunca tinha sido picado de forma tão repetida e dolorosa, estes mosquitos eram uma praga e não me deixaram dormir a noite toda. A grande estrada pan-americana no Peru é um conjunto de rectas imensas com bom asfalto e pouco tráfego que permitem rodar 700 km por dia sem esforço atravessando regiões desérticas situadas junto à costa do pacífico com dunas de areia de centenas de metros de altura. A chegada a Lima é impressionante, cidade de 8,4 milhões de habitantes estende-se por cerca de 100 km ao longo da costa de pacifico. O seu centro histórico é Património Cultural da Humanidade. Para ficar recomendo o hotel España, não é luxuoso mas pode-se estacionar a moto tranquilamente dentro da recepção do hotel, pagar 7 euros por noite e conhecer todo o tipo de viajantes e aventureiros no bar restaurante do terraço no último piso. Nazca é a cidade das famosas linhas que desenham figuras representando animais e figuras geométricas. Só foram descobertas quando a aviação civil começou a operar nesta região, porque as linhas com centenas de metros de comprimento possuem uma dimensão que só numa avioneta se pode apreciar totalmente. Assim fiz um passeio num Cesna mono motor durante 20 minutos que foram de pura aventura pois abanava mais que a moto numa estrada esburacada. A estrada de Nazca a Cusco é das mais desérticas e bonitas que fiz na viagem. Apesar das curvas e do frio, a paisagem de montanhas compensa todo o sacrifício. Aqui no meio das montanhas encontrei um autocarro avariado com mulheres e crianças numa zona totalmente desértica onde o frio cortava. Tinham partido o turbo e sem poder continuar esperavam que alguém os ajudasse porque não há rede de telemóvel nas montanhas. Eu prontamente ofereci ajuda mas como não tinha telemóvel via satélite fiz 3 horas de viagem cerca de 300km até encontrar um telefone público onde pude ligar para a empresa para que eles enviassem outro autocarro em socorro do primeiro. Essas pessoas ficaram lá seguramente mais de 8 horas sem água nem comida à espera que chegasse ajuda. Assim se viaja no Peru. Cuzco é uma cidade muito bonita mas o turismo gerado por Machupichu estraga parte do seu encanto. Muito fria devido à altitude de 3500 metros, esta cidade serve de ponto de partida para todos os aventureiros que querem chegar a Machupichu. Menos os que vão de moto como eu e o Che Guevara que seguimos pelo vale sagrado Inca até Ollantaytambo. Aí deixei a moto para apanhar o comboio, único meio de transporte para chegar ao mais famoso santuário Inca e seguramente as mais famosas ruínas do mundo. De Águas Calientes ainda falta uma caminhada de uma hora ou 20 minutos de autocarro até à entrada de Machupichu. Chegar lá antes do sol nascer é um privilégio para aqueles que fazem o caminho Inca 4 dias a pé, ou como eu que dormem uma noite em Águas Calientes pois o comboio de Cuzco chega depois das 10 horas da manhã. Acreditem que ver nascer o sol em Machupichu é místico e inesquecível. Só voltei à terra quando entrei nos famosos banhos quentes termais ao ar livre de Águas Calientes. O lago Titicaca faz a fronteira entre o Peru e a Bolívia, aprendemos desde a nossa infância que é o mais alto lago navegável do mundo sempre tive a curiosidade de o conhecer. Situado a 3810 metros de altitude a luz é extremamente intensa conferindo-lhe uma cor azul muito forte, a esta altitude o ar é já muito rarefeito e tanto eu como a moto sentíamos a falta de oxigénio, eu tinha uma sonolência que me obrigava a conduzir de capacete aberto apesar do frio cortante, e a moto perdia potência pois a injecção electrónica reduz a quantidade de gasolina injectada para o oxigénio disponível.

Bolívia

A chegada à Bolívia foi atrasada pela policia peruana que achando que eu era correio de droga me reteve uma hora para me revistar tudo. Na fronteira também perdi cerca de uma hora em tramites aduaneiros pelo que quando entrei na Bolívia eram já 17:00 e noite cerrada, a zona da fronteira era assustadora milhares de pessoas passavam para ambos os lados com mercadorias a maioria em triciclos a pedais ou mesmo carrinhos de mão alguns empurrados por crianças outros por velhos, a pobreza esta presente num pais onde o salário mínimo ronda os 36 euros mensais. Da fronteira a La paz conduzi todo trajecto de noite cerca de duas horas para fazer 200 km de estrada com muito trânsito em que o guarda da fronteira me aconselhou a não parar de modo algum dado o perigo de ser assaltado. A chegada a La Paz de noite foi inesquecíveis milhões de luzes espalhadas pelo vale que fica rodeado de montanhas nevadas. Situada entre os 3500 e 4000 metros de altitude é a capital mais alta do mundo a sua temperatura media anual e de 14 graus foi a cidade onde tive mais frio, o hotel barato onde fiquei a dormir por 5 euros não tinha aquecimento no quarto, fora do saco cama registei a temperatura de 12 graus claro que só lá fiquei uma noite, a mota essa subiu por uma tábuas os degraus que a separavam do pátio interior do hotel onde dormiu abrigada de olhares tentadores. No dia seguinte fiz o troço mais longo da viagem 918 km passei pelo ponto mais alto em relação ao nível do mar La Cumbre 4800 metros e compreendi porque chamam a Bolívia o Tibete da América do Sul. Quilómetros de paisagem sem vegetação completamente desabitada só com montanhas a rodearem o altiplano. Até Cochabamba a estrada é boa depois começa a descer as montanhas entra numa zona tropical e começa o martírio, zonas sem asfalto muito pó, calor e depois vem os mosquitos aos milhões até me obrigarem a parar para lavar capacete e radiador de óleo completamente tapado para seguir até Santa Cruz de lá Serra. A Bolívia possui 49.900 km de estradas mas destas apenas 2.500 km são asfaltadas sendo as restantes de gravilha ou mesmo terra o que as deixa intransitáveis assim que chove. De Santa Cruz para o Brasil não há estrada pavimentada e a que existe tem 750 km de muita lama e areia por isso decidi meter a moto no comboio da linha-férrea oriental mais conhecido como o comboio da morte. No dia seguinte bem cedo as 7:30 sai em direcção ao terminal bimodal onde pretendia seguir nesse mesmo dia com a mota no comboio, logo à chegada um rapaz novo veio ter comigo e me disse que o vagão estava cheio para seguir naquele dia, sabendo já o que ele queria perguntei quantos eram, respondeu dois e ofereci 25 Bolivianos a cada um para a moto seguir naquele mesmo dia, ficamos pelos 50 a cada cerca de 5 euros a cada e assim a moto foi carregada escadas acima até ao cais de embarque. Deviam ser 9:00 e já tinha a moto despachada, o comboio saia às 14:00 ainda tinha umas horas. O comboio saiu já atrasado eram quase 15:00, o meu bilhete o da moto e suborno ficou tudo em cerca de 50 euros. Barato para uma viagem de 750 km que me iria deixar na fronteira do Brasil em Guijarro-Corumbá em pleno pantanal, isso era o que eu pensava antes de aguentar 20 horas de tortura num comboio velho que roda sobre carris deformados sempre aos saltos de tal modo que não se consegue ler escrever ou dormir o tempo todo. Sem ar condicionado o calor é sufocante e pela janela aberta entra o pó e os mosquitos ávidos do nosso sangue. Compreendi finalmente porque se chamava comboio da morte. No final desta prova de resistência ainda tive de retirar a moto de cima do vagão descendo por uma tábua de madeira com 20cm de largura, de loucos mas resultou!

Brasil

O Brasil brindou-me com uma intensa chuvada assim que cheguei a Corumbá no Pantanal. Fazia um mês que não falava senão espanhol, tive mesmo dificuldade de comunicar pois os Brasileiros não entendem “o nosso sotaque” e temos de falar meio brasileiro para eles perceberem. Pelo Pantanal fora com muito cuidado devido à quantidade de vida selvagem que atravessa esta estrada e às crateras que se abrem pelo caminho visíveis só no último segundo. Eram 14:30 e felizmente já tinha almoçado quando senti a moto a abanar, parei no meio do nada pensando que era um furo mas não. Tinha partido o rolamento da roda de trás e já escorria óleo do cardam pela roda. Ainda não tinha pensado no próximo passo já estava uma pickup Ford a chegar. Aí pensei que estava tudo perdido! Ia ser assaltado e ficar pelado no meio do Mato Grosso sem moto. Mas não, ofereceram ajuda e escoltaram-me até à cidade mais próxima. Em Nova Andradina não havia nada a fazer era sábado e não havia serviço BMW o mais próximo ficava a 700km em Curitiba, a solução era arranjar boleia de um camião até Curitiba mas a rota dos camiões passava a 60km dali em Casa Branca. Foi então que a pickup me deu boleia com a moto até essa área de serviço. Havia bloqueio de estradas pelos agricultores e não passavam cargas já há alguns dias. Só no dia seguinte conheci o Hilário camionista que esteve quatro dias retido no bloqueio e aceitou levar-me até Curitiba com a moto no seu camião Foram 17 horas de viagem por vezes a 40 km/h devido às 30 toneladas de algodão que transportava. Deixou-me em Curitiba e no final não me cobrou nada alem de me oferecer um cartão telefónico para eu ligar para a assistência da BMW. Ainda dizem que o Brasil só tem ladrões? Em Curitiba na concessão BMW Starnews foram super profissionais deixaram a moto pronta no mesmo dia, alem disso devido à simpatia acabei por ficar amigo do pessoal todo. Em Florianopolis fiquei hospedado na casa de um motard viajante que já fez a Argentina o Chile, Peru, Uruguai e chegou a escrever um livro sobre as suas viagens www.ciceropaes.com.br quero deixa aqui o agradecimento a este casal que recebe viajantes de moto sem qualquer custo por uma a duas noites que são sempre repletas de histórias e relatos interessantes e de onde saem ideias para as suas próximas viagens. As restantes estradas do Brasil foram excelentes pois o eixo Florianopolis-S. Paulo-Rio de Janeiro tem boas auto-estradas em que motas não pagam portagens. Em S. Paulo no mês de Maio vivia-se uma semana de Motins em que a policia para se defender dos grupos armados disparava quase indiscriminadamente, houve dezenas de mortos e as pessoas ficaram em casa com receio da violência nas ruas. Foi nessa altura conturbada que eu cheguei já de noite a S. Paulo, o meu primeiro contacto com a policia foi curioso, pedi indicações para chegar a uma rua, a que o policia prontamente respondeu, no final perguntou “porque eu estava vestido de astronauta?” referindo-se ao fato completo que eu usava, quando lhe expliquei que vinha de Caracas e já tinha rodado quase 12.000 km de moto ele não me deixou ir embora sem lhe dar uma autografo na agenda! Chegar ao Rio de Janeiro após um passeio de 500 km foi lindo. Fui à Barra da Tijuca onde tinha combinado com o Guilherme da Concessão BMW meter a mota numa palete oferecida para enviar para Portugal. Guilherme fez o possível mas havia greve de alfândega há quase um mês e ele não tinha recebido motas novas. A solução foi comprar uma palete metálica que me foi entregue no aeroporto. Só lá no aeroporto me apercebi da gravidade da situação, apenas cargas perecíveis circulavam tudo o resto enchia os armazéns do aeroporto aguardando o final da greve para ser despachado. Não sei como consegui mas a moto foi despachada no mesmo dia e nem contratei despachantes nem tive de pagar luvas a ninguém. O pessoal da TAP no Rio foram excelentes a tratar de tudo em tempo recorde, o oficial da alfandega compreendeu a minha situação e ajudou a que tudo ficasse pronto no mesmo dia, alem disso no dia seguinte havia uma greve geral e tudo estaria paralisado. Assim ainda fiquei com dois dias livres para visitar o Rio de Janeiro já sem a moto mas descansado pois ela já estava entregue à nas mãos da TAP.

Dados Gerais:

- 12.000km na moto 750km de comboio e 700km de caminhão TIR.

- 698,22 Litros de gasolina de várias qualidades desde 84 a 95 octanas.

- Consumo médio 5, 82 litros/100km.

- Maior distancia num só dia 918km de La Paz a St Cruz na Bolívia.

- Menor Distancia num dia 120km de Caja Seca a Merida na Venezuela.

Episódios Curiosos

- Logo na alfândega de Caracas quando tentava tirar a mota para iniciar a viagem tive de subornar um funcionário para que a papelada seguisse o seu caminho. Mas o que se passou foi no mínimo caricato, o processo que deu entrada estava errado pois eu não pretendia uma importação definitiva para esse pais e além do suborno ter sido devolvido, quando falei com a responsável de serviço (que era uma mulher linda) ela começou por me repreender por ter contratado um despachante que não sabia o seu trabalho Passado meia hora tinha a autorização na mão sem pagar nada.

- Na Venezuela o preço da gasolina é ridículo 3,6 cêntimos de euro cada litro (sem chumbo 95), a gasolina mais barata do mundo! Ser o 5º maior exportador mundial de petróleo ajuda mas não é o suficiente para explicar este fenómeno. O resultado é que na fronteira com a Colômbia onde a gasolina custa 65 cêntimos de euro existe tráfico de gasolina e há crianças a passar a fronteira de bicicleta com bidões de 30 litros de gasolina para vender do lado Colombiano na berma da estrada.

- Na Colômbia e Equador todos os motociclistas têm de usar um colete com a matrícula da moto na frente e nas costas tal como no capacete. Esta medida discriminatória deve-se ao elevado número de assaltos em que se emprega o motociclo. Eu não usei esse colete mas quando a policia me parava apenas queriam saber o preço da moto a cilindrada e a capacidade do depósito, raramente pediam documentos e nunca pediram subornos ao contrário do Perú.

- Na entrada do Equador a alfândega de Ruminaca estava em greve, havia polícia de choque, pneus em chamas no meio da rua e pessoas com cartazes. O que me obrigou a negociar com o piquete de greve a hora a que devia regressar para que me emitissem a autorização de circulação para esse pais. E foi assim que 2 horas mais tarde consegui o documento apesar da situação caótica que se vivia na pequena cidade da fronteira.

- No Peru a polícia de estradas parou-me varias vezes mas sem argumentos para me multarem acabam por pedir com delicadeza “una propina voluntária para la gasolina”. Deste modo quase simpático pedem um pequeno suborno ao qual sempre acedi, mais por pena porque o seu salário é muito baixo. Dez nuevos Soles equivalente a 2,3 euros a cada eram o suficiente para se despedirem com grande alegria desejando felicidade e que deus me acompanhe na minha viagem.

- Mas nem tudo são maus exemplos na América latina, as motos não pagam portagens nas estradas e auto-estradas da Venezuela, Colômbia, Peru e Brasil. Existindo um canal lateral para passarem sempre que existe detecção electrónica. Apenas na Bolívia e Equador, pagam 50% da tarifa normal na Pan-americana.

- No Peru já próximo da fronteira com a Bolívia fui revistado durante cerca de uma hora pela polícia fiscal convencidos de que era correio de droga. Após explicar que não trazia droga e que nem cigarros fumava perguntaram se não andava armado. Depois de se assegurarem que não trazia armas e de virar tudo do avesso chegaram a experimentar o perfume que trazia, o que me salvou foi ter guardado os bilhetes de Machupichu e do comboio para lá chegar. Com o argumento que só um turista faria essa visita lá se convenceram e me deixaram seguir com um pedido de desculpas.

- O maior susto da viagem foi no Peru numa daquelas rectas sem fim em que a 160km/h parecia que estava parado e me começava a habituar a rodar horas a este ritmo. Apanhei uma poça de óleo de grandes dimensões que fez a roda traseira descolar e o motor acelerar a fundo, a frente começou a vibrar e parecia que a moto estava no ar pois continuou a abanar perigosamente ate que os pneus secaram e agarraram o asfalto outra vez. Foram apenas segundos mas pareceu uma eternidade….imaginem se fosse numa curva?

- Na Bolívia apanhei uma nuvem de mosquitos que fez escorrer pasta de mosquito na viseira do capacete, no vidro da GS e tapou completamente o radiador de óleo da moto obrigando-me a parar para lavar os malfadados bicharocos pois não via nada e a ultima coisa que queria era abrir a viseira pois os mosquitos eram enormes.

- No Brasil, Mato Grosso do Sul a moto partiu o rolamento da roda de trás. Fiz 700km à boleia de um camionista Brasileiro com a moto atrás do camião. Foram 17 horas de viagem por vezes a 40 km/h devido às 30 tons de algodão que transportava. Deixou-me em Curitiba e no final não me cobrou nada alem de me oferecer um cartão telefónico para eu ligar para a assistência da BMW. Ainda dizem que o Brasil só tem ladrões?

- Em S. Paulo no mês de Maio vivia-se uma semana de motins em que a policia para se defender dos grupos armados disparava quase indiscriminadamente, houve dezenas de mortos e as pessoas ficaram em casa com receio da violência nas ruas. Foi nessa altura conturbada que eu cheguei já de noite a S. Paulo, o meu primeiro contacto com a policia foi curioso, pedi indicações para chegar a uma rua que o policia prontamente respondeu, no final perguntou porque eu estava vestido de astronauta referindo-se ao fato completo que eu usava, quando lhe expliquei que vinha de Caracas e já tinha rodado quase 12.000 km de moto ele não me deixou ir embora sem lhe dar uma autografo na agenda!

Dicas para América do Sul

- Com hotéis entre 5 e 10 euros por noite não vale e pena carregar o equipamento de campismo. O mesmo em relação a cozinhar, com refeições desde 1,5 euros a marmita pode ficar em casa.

- Não é necessário levar toda a roupa do armário só porque vai ficar 1 ou 2 meses fora de casa. A roupa para uma semana chega pois há sempre onde lavar a roupa por cerca de 1 euro cada 5 kg.

- GPS não é de todo necessário a não ser que vá fazer troços fora de estrada que não estão sinalizados, mesmo assim pode sempre parar e perguntar.

- Mesmo nos lugares mais remotos encontrei sempre Internet se bem que por vezes a velocidade fosse baixa mas o suficiente para diariamente enviar um e-mail dizendo que estava bem e contar as novidades.

- Há caixas Multibanco em todas as cidades embora nem todas aceitem os cartões europeus. Na Venezuela é necessário introduzir os 3 primeiros dígitos do BI após o PIN o que causa uma certa confusão. Cuidado com os ladrões que vigiam os multibancos mas mais cuidado ainda com as taxas que o banco vai cobrar pelo movimento, chegam aos 5 euros!

- Muito cuidado ao trocar o dinheiro nas fronteiras pois as notas falsas são fáceis de passar quando ainda não conhecemos o dinheiro desse país.

Segurança

O tema que mais respeito me impôs desde o inicio foi a segurança, todos sabemos que os países da América latina estão em constante convulsão politica e social, a corrupção é elevada, a pobreza é generalizada e a consequente violência com assaltos e uso de armas sem o mínimo respeito pela vida humana. As estradas são más e os condutores conseguem ser piores que os Portugueses com a agravante de o parque automóvel estar inacreditavelmente envelhecido e em más condições. Ao conduzir sozinho e de moto podia facilmente ser alvo de roubo, acidente ou mesmo o temido sequestro tão na moda na Colômbia e Brasil. Regras de ouro foram conduzir sempre de dia (nem sempre respeitada). Dormir sempre oito horas para manter os sentidos alertas e conduzir nas melhores condições físicas e psicológicas. A moto dormir sempre em parques pagos ou mesmo dentro da recepção de alguns hotéis. Não parar em locais remotos e isolados se não fosse realmente necessário e nunca deixar acabar a gasolina. Não usar relógio nem telemóvel e não ostentar, nada guardando tudo nos bolsos do casaco. Estar sempre alerta para esquemas de roubo comuns na América latina como falsos polícias, falsos táxis, crianças ou raparigas com ar inofensivo que roubam. Comecei também a me aperceber que viajar de moto e sozinho gera uma empatia com a maioria das pessoas tanto por admiração pela coragem como simplesmente curiosidade de querer saber mais sobre a própria viagem.

Valores Previstos (P) e Realizados (R)

Viagens (P)1.000,00 € 1.000,00 €

Transporte moto (P)1.500,00 € (R)1.500,00 €

Taxas alfandegarias (P)100,00 € (R)150,00 €

Fato motociclismo (P)1.050,00 € (R)1.050,00 €

Capacete (P)300,00 € (R)300,00 €

Alimentação (P)500,00 € (R)500,00 €

Estadias (P)500,00 € (R)1.000,00 €

Combustível (P)500,00 € (R)483,00 €

Seguro saúde (P)100,00€ (R)80,00€

Maquina fotográfica (P)250,00 € (R)250,00 €

Cartão 1 Gb (P)50,00 € (R)50,00 €

Bateria suplente (P)50,00 € (R)50,00 €

Carta internacional (P)40,00 € (R)40,00 €

Passaporte (P)33,00 € (R)33,00 €

Fotos tipo passe (P)5,00 € (R)5,00 €

Farmácia (P)60,00 € (R)60,00 €

Ferramenta (P)100,00 € (R)100,00 €

Saco cama (P)50,00 € (R)50,00 €

Roupa (P)0,00 € (R)50,00 €

Mochila (P)0,00 € (R)60,00 €

Pneus (P)250,00 € 250,00 €

Revisão (P)100,00 € 350,00 €

Avarias 0,00 € 500,00 €

TOTAL (P)6.538,00 € (R)7.911,00 €

Marc Hermínio - E-mail: marcherminio@hotmail.com