Viagem pela Europa
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A "Quenga" - Viagem a Mossoró

Nesta viagem tive, durante parte do percurso, a providencial companhia de uma fiel quenga. Sem ela não teria podido fazer as melhores fotos do roteiro. Ela descia da moto para ajudar nas fotos e depois, quietinha e sempre mais suja, voltava para o seu canto, na garupa, esperando o próximo momento em que sua presença seria necessária. Boa menina!

A Quenga A "Quenga"

Saí sozinho de Fortaleza, às 07:40h do dia 16 de julho. O Xavante, velho amigo motociclista que estava vindo de Juazeiro do Norte numa camionete Ranger 4x4 atrasou muito e a maré não pode esperar por ninguém. Eu precisava de maré baixa para fazer o caminho planejado.

O tempo estava nublado, com pesadas e ameaçadoras nuvens, mas não choveu. Lembrei-me dos heróis de Esparta e da resposta de Leônidas ao general persa que ameaçou cobrir a luz do sol com suas flechas: “combateremos na sombra!”. Tal como o legendário general espartano, mas em situação completamente oposta pensei; viajarei na sombra.

O tradicional vento leste soprava forte no sentido contrário ao meu, incomodando um pouco. O conta-giros ficava quase o tempo todo entre cinco e seis mil giros, com o propulsor roncando suave e colocando a Falcon entre 90 e 110 km por hora. O asfalto da CE 040 está impecável até Aracati.

Ao passar por Cascavel, uma cena triste embota por alguns momentos minha alegria de estar na estrada: Carros de polícia e aglomeração de pessoas. Uma bicicleta retorcida, um homem morto, um corpo esfriando no asfalto, debaixo das rodas do caminhão que o atropelou. Lembro-me do quanto é frágil esta vida e sigo meu caminho.

Depois de 145km de asfalto, chego em Aracati, dou uma paradinha básica no conhecido posto BR para reabastecer (20,5km/l), tomar um cafezinho, fumar um cigarro e descansar um pouco. Telefono para o Xavante e concluo que ele não chegará a tempo de me acompanhar no roteiro planejado, que seria pela beira do mar entre Canoa Quebrada e Redonda, percorrendo cerca de 50 km entre o mar e as imponentes falésias que existem ali.

A maré estaria baixa às 10 horas. Situação perfeita para meus planos. É aquela coisa, o Universo conspira a meu favor. Quando algo não dá certo é porque eu não compreendi a mensagem...

Chego na internacional Canoa Quebrada e converso com um bugueiro sobre a maré. Está perfeita, no nível mais baixo naquele momento, ele confirma. Ainda trocamos palavras sobre o Toquinho, um amigo nativo dali que se foi num acidente com bugre, em cuja casa eu me hospedava, nos anos 80. Agora tem rua em Canoa com o nome deste amigo.

Praia e coqueiros Praia e coqueiros

Passei pela antiga vila de pescadores que era Canoa, contornando a “Broadway” e depois entrei na areia, ainda pelo lado de cima das falésias até encontrar o ponto de descida para a praia. Este caminho tinha muitas marcas de pneus de veículos 4x4 e bugres, formando profundos sulcos na areia de duna. Eu estava bem desacostumado com este tipo de terreno, fazia muito tempo que não pilotava a motos sobre dunas. A moto balançava muito e eu estava achando que logo conheceria o sabor daquela areia. Também havia a agravante de eu não ter baixado a pressão do pneu traseiro para coisa de 12 libras. Deixei com a calibragem de asfalto porque não sabia se depois encontraria meio para recalibrar.

Cheguei intacto na praia e fiz um retorno para tentar fotografar o símbolo de Canoa Quebrada, meia lua e estrela pintadas de branco, esculpido no barranco vermelho. Apesar de no início dos anos 80 eu ter andado muito por ali, tendo feito muitas estripulias com a antiga XL 250 R, eu não tinha nenhuma foto daquele famoso símbolo. Tentativa frustrada. Há cavaletes e cordas impedindo a entrada de veículos na área das barracas. Eu ainda pensei em desobedecer aos avisos, porém alguns nativos, à distância, fizeram gestos negativos. É, não sou mais conhecido por ali. Também não quero encrencas. Desisti da foto.

Faço o retorno com muita dificuldade, a areia está muito fofa e facilmente o pneu traseiro enterra-se até o eixo.

Parei para uma primeira foto (de uma simbólica canoa de verdade literalmente quebrada) e descubro que terei outra dificuldade. Como deixar a moto em pé, no descanso, se este afunda facilmente na areia? Olhei para os lados procurando uma pedra, um pedaço de madeira ou garrafa plástica vazia e vejo ao longe uma companhia que iria me ajudar muito. Uma quenga esperava por mim, ali na areia, tomando seu solzinho matinal. Para chegar até ela sem derrubar a moto, tive que calçar o descanso precariamente com minhas luvas e rapidamente seqüestrar a quenguinha do seu sossego.

Uma canoa quebrada Uma canoa quebrada

Comecei minha tocada rumo ao leste. Ponta Grossa era apenas uma minúscula mancha adentrando o mar, no horizonte. Havia muitas poças de água deixadas pela maré e era preciso cuidado ao passar os pequenos riachos que a vazante deixou, alguns podem surpreender pela profundidade.

Passando a praia de Majorlândia o movimento de pessoas na orla diminuiu muito e depois de Lagoa do Mato praticamente tudo estava deserto. Somente alguns catadores de moluscos na beira do mar e algumas lavadeiras nas fontes de água que brotavam dos barrancos. Aqui e ali se via uma pequenina casa de palha, sempre no alto dos barrancos. Suponho que estas bucólicas casinhas sejam de pescadores. Tive vontade de parar em uma em que as pessoas que estavam na varandinha na frente da casa, à distância, trocaram acenos comigo. Mas tinha a maré... Eu queria uma boa margem de segurança para algum imprevisto.

Casinha de pescador Casinha de pescador

Depois de meia hora de insegurança, temendo ir ao chão devido à instabilidade do terreno, o sangue trilheiro aflorou e voltou a circular na carcaça, já nem me lembrava dos primeiros momentos na areia frouxa. Agora eu ficava em pé nas pedaleiras, apertava o tanque com as coxas e pronto. Nada de balançados perigosos. A Falcon agora estava nas minhas mãos, era só acelerar que a menina ia para onde quer que eu mandasse. Em alguns trechos, na areia fina ainda molhada, parecia que eu pilotava sobre um espelho tal era a perfeição da nossa imagem refletida no chão.

O cenário muda a cada instante. Olho para o mar e vejo uma pequena jangada a enfrentar o mar com chuva ao fundo. Havia nuvens pesadas no céu. Até pensei que enfrentaria chuva forte, mas apenas alguns respingos me alcançaram. Viro para a direita e vejo formações que lembram outros planetas, castelos ou mesmo os Alpes gelados. Dá vontade de andar a pé por ali, pois mesmo indo a 40/50 km por hora, sinto que estou perdendo algum detalhe aqui ou ali.

Chuva no mar Chuva no mar

Paro para uma foto perto de uma jangada. Aguardo um pescador se aproximar para lhe pedir emprestado um balde que ele levava. Precisava de um apoio para o tripé da câmera. Ele gentilmente cede o balde, faço a foto e ofereço-lhe um cigarro. Ficamos pitando um cigarrinho numa boa prosa. Ele me conta parte da sua vida, que nasceu na região e nunca saiu dali. Possui jangada e rede de pesca. Que se chama Firmino da Antônia e tem 40 anos e que a senhora sua mãe, dona Antônia está mais à frente, catando mariscos.

Nesta região tem-se este hábito, as pessoas são conhecidas com o nome da mãe após o pré-nome. Por fim, o nome em que a mãe é conhecida, torna-se o sobrenome de fato das pessoas.

Cada vez que eu parava para admirar a paisagem ou fotografar alguma coisa, ao desligar o motor da motocicleta, um silêncio profundo invadia o ambiente. Este silêncio só era preenchido por uma sinfonia de dois instrumentos: O mar e o vento.

Contorno lentamente a Ponta Grossa, circulando entre falésias e arrecifes e logo vejo a enseada em perfeito semi-cículo que é a praia da Redonda. Tinha apenas mais seis quilômetros pela frente. O tempo que imaginei para fazer o percurso deu de sobra. Poderia até ter demorado um pouco mais. Eu calculei que faria a travessia em duas horas de passeio. Como a maré estava em seu nível mais baixo às dez horas, eu teria uma boa margem de segurança para qualquer imprevisto. É preciso tomar este cuidado neste litoral. A maré cheia, em alguns trechos, bate com força nos barrancos e um incauto pode ter sérios problemas ficando preso entre o mar e as falésias.

Ponta Grossa Ponta Grossa Praia da Redonda Praia da Redonda

Sigo com a moto rodando perto do mar, sobre um fino espelho de água salgada, vou passando devagar pela vila de Redonda, cumprimentando as pessoas com um gesto ou uma buzinada e, na extremidade na praia subo pelo areão até a Pousada do Sinhô, onde me hospedei. Aciono mais uma vez o serviço da quenguinha para estacionar a Falcon e observo que o Xavante ainda não havia chegado. Era meio dia e meia, o camarada é bom de atraso. Não há serviço de celular na região e só consegui informá-lo que havia chegado e confirmar o local em que estava, ligando a cobrar de orelhão.

Agora era só tirar as botas encharcadas, se espichar numa cadeira olhando para o mar cheio de barcos ancorados, tomar aquela cervejinha super gelada e provar alguns lagostins no alho e óleo para completar o passeio.

Depois, quando o Xavante chegou e se instalou, fui dar uma volta a pé pelo Pontal do Frade, extremidade à direita da Redonda. A caminho, caiu uma forte chuva. Deixei a máquina fotográfica protegida sob um catamarã e fui curtir a caminhada debaixo do toró. Cascatas vermelhas de barro caiam do alto das falésias, havia várias grutas para buscar proteção, mas eu queria tomar banho de chuva mesmo.

Numa dessas grutas encontrei um grupo de pessoas, rapazes, moças e algumas crianças, certamente nativos da região. Um deles me ofereceu uma dose de cachaça. Tomei a cana com gosto, conversei uma pouco e continuei o passeio. Em um lugar mais ermo e protegido, aproveitei para me harmonizar com aquela natureza tirando o short e entrando no mar do jeito que nasci. Que sensação gostosa! Fiquei um tempo assim, sentindo a morna água do mar no corpo inteiro e a chuva a molhar a cabeça.

Vesti-me e comecei a voltar para a pousada. Desta vez a turma da gruta me ofereceu um cigarro comprido, destes que não se vende em tabacarias... “Obrigado amigos” respondi recusando a oferta. “Eu tomo cerveja, se fumo um negócio desses vai ser um estrupício danado!” Agradeci seguindo meu caminho.

Depois fui para o apartamento tomar um bom banho de chuveiro, um descanso reparador para espichar o esqueleto. Da varandinha onde ficam os apartamentos tem-se uma boa vista da enseada, repleta de barcos de pesca ancorados, mas desta vez não houve o espetáculo do pôr do sol. O tempo continuava nublado.

Já era noite quando desci. Ficamos nos quiosques batendo papo e depois fomos fazer a única refeição do dia digna deste nome na barraca do Carlinhos. Pedimos cerveja e camarões enquanto era preparada a divina lagosta ao molho branco que nos foi servida.

Depois do jantar, voltei com a moto pela praia, pois a maré havia baixado novamente. Fiz calmamente todo o contorno da enseada da Redonda na escuridão da noite sem estrelas. Só o farol da Falcon lambendo a fina camada de água que o mar deixou. O momento de maior introspecção foi quando virei a moto para o mar, desliguei o motor e apaguei o farol. Eu estava muito feliz por poder está ali, naquele momento, em companhia de mim mesmo.

Houve uma festa na pousada. O reggae tocava alto e o pessoal local estava bem animado. Eu fiquei a distância, tomando umas saideiras com o Xavante e depois fui dormir. Pena que o som da festa sufocou a sinfonia marítima que me embalaria o sono.

Acordei cedo no sábado. Fiz mais um passeio e fotos com a moto pela praia e depois voltei para lavar a bichinha. Antes de viajar, tomei todos os prévios cuidados, lubrificando a corrente com óleo e grafite, gastando quase todo um spray de óleo antiferrugem, mas não foi o suficiente. A corrente estava já amarelando de ferrugem e vários parafusos estavam esbranquiçados pela oxidação. Ali, no momento eu só tinha muita água para tirar o sal da moto. Eu levei no bauleto óleo spray grafitado para a corrente e querosene para limpeza, mas precisava de um posto para dar uma geral na Falcon. A água do mar e a areia foram cruéis com a menina.

Era nove horas da manhã, eu já estava com tudo pronto para seguir viagem até Mossoró e o Xavante pedia “dois minutinhos” para se arrumar. Fui colocar a moto num piso estável, me despedir, com uma certa emoção, da querida companheira quenga, aquela casca de coco que tanto colaborou calçando o descanso da moto quando eu precisava estacionar na areia fofa. Depois voltei para falar com o pessoal da pousada a acertar a conta. Encontro o Xavante ainda sentado na soleira do apartamento do mesmo jeito que deixei meia hora antes, agora conversando animadamente com uma simpática funcionária da pousada. O cabra pede mais “dois minutinhos” e eu vou cuidar de outras coisas. Quando ele aparece já é mais de dez e meia e ainda fala em tomar “remédio controlado”, ou seja, a famosa cerveja de saideira.

Duna e Falésia Duna e Falésia

Eu até não queria, mas fazer o quê? É difícil resistir a uma cerveja tinindo de gelada e terminamos por tomar três garrafas antes de realmente irmos embora.

Saímos da pousada perto de meio dia. Logo na saída da vila, encontro um pequeno lavamoto. Pronto! Encontrei a salvação para a Falcon antes mesmo de pegar estrada. Pedi prioridade aos camaradas que estavam como motos na frente e eles cederam o lugar para lavagem e lubrificação da minha motocicleta, que estava tão carente disto.

Enquanto cuido da moto, o Xavante estaciona a Ranger num boteco próximo e manda um menino me entregar uma latinha de cerveja. Beleza! Isso é que é companheiro. Enquanto ele toma sua cervejinha na sombra não esquece do amigo que está sob sol quente cuidando da motocicleta.

Agora é só asfalto. Pegamos a estrada para Icapuí e dali para Tibau, no Rio Grande do Norte. Icapuí é uma cidade limpa e bem urbanizada, fruto de boas administrações e participação popular. A estrada segue por uma parte alta e à esquerda, antes do mar, víamos imensos coqueirais. Passamos na ponte sobre um tal Rio Arrombado, depois pelo distrito de Melancia de baixo. Opa! Enquanto as melancias estiverem por baixo, tudo bem... Por cima pode ser um problema, caso caiam. Ora, logo chegamos à Melancia de Cima... Felizmente não havia melancias caindo.

Paramos numa mercearia. A mercearia do Sr Junior é destas que de tudo tem um pouco. O Xavante precisava telefonar e aproveitamos para tomar uma cervejinha e provar um bom queijo de coalho. No princípio o pessoal estranhou nossa presença, mas logo relaxaram e tiramos uma boa prosa. O povo da região de Icapuí ainda tem nos olhos e cabelos claros as marcas da presença holandesa naquele litoral no século XVII.

Passaram três amigos do Esquadrão com duas Shadow e uma Drag Star e eu aproveitei para ir no bonde deles. Ao chegarmos em Tibau, há um trecho de trezentos metros de areia. As custom reduzem em muito a velocidade e eu acelero deixando-os na poeira. É bom estar numa trail de vez em quando...

Ao chegarmos em Mossoró, os amigos, que estavam com as esposas na garupa, entraram direto no hotel Termas, e eu, velho motociclista das estradas fui, claro, para o local do Encontro. Coloquei a bandeira do Esquadrão e fui procurar saber aonde era o churrasco 0800 programado. Era na sede dos Carcarás. O meu amigo Radi, dos Caçadores de Emoção - MC, de Caicó, sabia o caminho e nos guiou até lá.

Na sede dos Carcarás, à beira do Rio Mossoró, encontro o velho amigo Ferrugem, residente na cidade, logo na entrada. “Isso é hora! Pensava que não viesses mais”, ele diz batendo uma foto na minha chegada.

O churrasco foi ótimo. Fartura de tudo. Fartura de amigos, de cumprimentos, de carne, de cerveja e de muita conversa.

Já era noite quando saí, acompanhando o Ferrugem e sua esposa Leninha, que gentilmente me hospedaram na casa deles, o “Ferrugem Palace”. Lá foi só o tempo de tirar a tralha da moto, tomar um bom banho, vestir roupa limpa e antes de voltar para o local da festa, provar um delicioso doce de leite com queijo manteiga.

Mas antes passei um vexame: ao entrar na casa do amigo e levei comigo o fedor de titica de cachorro que eu não havia notado que grudara na sola da bota ao estacionar a moto. Ainda bem que não sujei os tapetes. Soube depois que existe uma lenda tibetana que considera isto sinal de muita fartura para os donos da casa... (risos)

Fomos ainda a uma boa pizzaria recomendada pelo casal. Precisávamos de um jantar de verdade. Este negócio de tira gosto ali, cervejinha aqui, engana o estômago, mas no fim bate uma fome e a fraqueza nos derruba.

3º Mossoró Moto City 3º Mossoró Moto City

O 3º Mossoró Moto City estava ótimo. Circulei bastante para rever os velhos amigos e fazer novas amizades. O velho rock troava, como sempre muito alto e em todos lugares, atrapalhando as conversas. Fui para o palanque, representando o presidente do Esquadrão, para receber o troféu de participação e lá em cima o clima foi de muita confraternização e alegria. Temi até que a estrutura fosse ceder de tanta gente boa que estava lá.

3º Mossoró Moto City 3º Mossoró Moto City

Terminamos a festa tomando sossegadas saideiras em volta de uma mesa com o Xavante e namorada, Ferrugem e Leninha, e mais uma simpática amiga. Era quase três horas da madrugada quando fomos embora. Afinal, havia uma estrada para pegar na manhã que estava para chegar.

Acordei cedo na manhã de domingo. Arrumei minha bagagem enquanto aguardava o casal anfitrião acordar e depois tomamos juntos o café da manhã. Às nove horas estávamos no local do encontro. Recolhi a bandeira do clube, circulei um pouco nas barracas e às dez horas, despedi-me dos amigos e peguei a estrada para Fortaleza.

Parei num posto para abastecer e vejo que o consumo de combustível foi alto, 19,05km/l. É, se divertir andando na areia tem seu preço.

Tinha agora pela minha frente longas retas de asfalto bom e vento a favor. Mantive a velocidade entre 90 e 110km/h e cinco a seis mil giros no contagiros. O motor ronronava gostoso avisando que tinha muito mais para dar. Parei em Aracati apenas para um cafezinho e um cigarro. Não precisava abastecer. A Falcon tem autonomia para chegar em Fortaleza.

Na CE 040 mantive a tocada com prudência. Há muitos veículos velhos circulando e sempre existe o perigo dos irresponsáveis de sempre, além de animais na pista. A estrada parecia dividir o céu em dois. A minha direita céu limpo e sem nuvens. À esquerda nuvens plúmbeas ameaçavam cair em forma de forte chuva. Engraçado, quando a estrada saía da linha divisória eu pegava chuva. Não muito forte, mas muito bem vinda para refrescar o piloto e tirar o resto do sal da moto.

O único imprevisto da volta foi que um motorista de caminhão, que vinha no sentido contrário, fez uma ultrapassagem sem respeitar minha presença na estrada. Tive que ir para o acostamento. Xinguei e praguejei até a quinta geração do verme covarde, safado potencial assassino. Felizmente o acostamento estava em bom estado.

Ao chegar, as 12:30h, não fui direto para casa. Fui para o Casa de Farinha, famoso restaurante especializado em comidas típicas nordestinas há 20km de Fortaleza, onde combinei com a Ângela, minha esposa, de almoçarmos juntamente com outros casais amigos que não haviam viajado. Nosso pedido foi Carneiro no Buraco, uma das especialidades da Casa, acompanhado, claro, por aquela cerveja gelada para refrescar.

Antes de finalmente chegar em casa, fui abastecer a Falcon, que marcava 246km no odômetro parcial desde o último abastecimento em Mossoró. Desta vez, com aquele vento estando a favor, a menina fez 23,36km/l.

Eu já tinha feito viagem mais longa com a Falcon, de Fortaleza a Campina Grande (cerca de 680km) e voltei meses depois. Quando comprei a Shadow simplesmente deixei a Falcon para uso urbano. É verdade, senti falta da proteção do pára-brisa da Shadow e de espaço para esticar as pernas, além do bom torque de um motor V2. Mesmo assim, depois desta prazerosa viagem, terei mais dúvidas para decidir qual dos meus dois amores escolherei para me levar nas próximas viagens.

Luiz Almeida
22/07/2004

Contato com o autor: lfn@ibge.gov.br