Viagem pela Europa
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Bolívia-Peru-Brasil(Via Acre) e Venezuela

topoWilton e Crianças Nativas

"Entrar na Bolívia pela região aonde, outrora, passaram as missões Jesuíticas e, por ali, chegar aos pés da magestosa Cordilheira dos Andes é algo que impressiona. Tanto por ser aquele país a capital folclórica das Américas, quanto pela quantidade de areia que ali se encontra. Depois de atingir os 4496 metros de altitude, percorrer o altiplano andino, passando por La Paz, e seguir margeando o Lago Titicaca (o mais alto lago navegável do mundo), entrar no Peru e, ainda no altiplano andino, seguir até Cuzco para conhecer a história dos Incas e a Macchu Picchu. Retornar e cruzar a cordilheira rumo ao Brasil, mais precisamente no passo de Huallahualla para, então, adentrar a floresta amazônica peruana, percorrendo parte da futura Rodovia Inter-oceânica até a fronteira tri-nacional (Brasil-Peru-Bolívia). Depois Manaus, Boa Vista e sul da Venezuela. Este foi o desafio que Wilton resolveu fazer em sua motocicleta. Tudo em uma viagem marcante, encantadora e, sobretudo, desafiadora, dedicada a quem ama o motociclismo, as duas rodas e, principalmente, a vida !"

Partimos de São Paulo rumo a Campo Grande, Cuiabá e Cáceres. Nossa "aventura" começaria no momento em que cruzássemos a fronteira boliviana em San Mathías. E assim foi, entramos na Bolívia após apresentarmos nossas carteiras de vacinação contra febre amarela e carimbarmos os passaportes.

boliviaFronteira Bolívia

Acontece que somente no dia seguinte conseguiríamos a autorização para viajarmos no país com nossas motocicletas, já que a Aduana estava fechada naquele horário. Aproveitamos para conhecer um pouco a cidade, a primeira no novo país, e caminharmos um pouco. No dia seguinte, após visitarmos o mercado local, seguimos à Aduana, regularizamos as motos e partimos ao interior do pantanal boliviano. A estrada é belíssima, cheia de surpresas e encantos como, por exemplo, tuiuiús (pássaro símbolo do pantanal), garças e jacarés. Em determinado momento tivemos que reduzir a velocidade para a passagem de quase mil cabeças de gado. Naqueles arenais intensos e escaldantes seguimos, agora rumo à San Ignácio de Velasco e, depois, Concepción, cidade que abriga a Igreja da Imaculada Concepción. Considerada a "Jóia da Região", esta igreja foi fundada em 1753, época em que as missões jesuíticas estiveram por ali, com o objetivo de catequizar os índios locais. Mais 65 Km e estávamos em San Javier, cidade que tivemos a sorte de chegar bem na hora quando as pessoas estavam se preparando para a festa de San Pedro. Trata-se de uma cerimônia religiosa promovida pelos nativos que se inicia com o canto evocativo feito pelo homem mais importante da comunidade e que chama os participantes para a oração inicial. Todos ficam de frente para uma parede, cantando, para, depois, saírem dançando no pátio ao som dos tambores. Depois é a hora da Chincha, espécie de cachaça feita de milho, ser distribuída. Como nós estávamos fotografando e filmando toda a cerimônia, fomos convidados a saborear, com os índios locais, aquela especiaria. Tomamos, tomamos e tomamos... O jeito foi dormirmos naquela cidade mesmo. No dia seguinte, mal o dia amanheceu, continuamos a seguir em direção à Cordilheira dos Andes, minha eterna paixão, depois nossa viagem foi subindo, subindo e subindo. Apesar da condição ruim das estradas, estávamos preparados e com motos ideais para todo o terreno. Passamos por Cochabamba e continuamos a subida. Quando mais subíamos, mais a temperatura baixava e, apesar do dia estar lindo, ensolarado e limpo, o frio começou a nos castigar, e muito. Chegamos ao ponto mais alto da estrada, La Cumbre (a 4496 metros de altitude), aonde paramos para fotografarmos e filmarmos um pouco. Um garoto de origem Aimará se aproximou, curioso, e começou a puxar papo com a gente. Pena ele não falasse o espanhol, mas somente seu idioma nativo, mas conseguimos bater um papinho, porém ele não permitiu que o fotografássemos. Acontece que os povos das montanhas acreditam que, se tiramos sua fotografia, estaremos levando suas almas conosco. Naquela noite dormimos em Caracollo, aliás no mesmo lugar que eu havia estado quando voltava do Alasca em outra viagem (esta relatada no livro "Uma Aventura às Três Américas"). Perguntei se havia lugar para tomarmos banho e a garota me respondeu que sim, porém que não havia água quente. Como a temperatura baixou até os 10º C negativos, percebi que, em minhas lembranças, não havia escutado história de alguém que tivesse morrido de sujeira, mas de frio... Na manhã seguinte, após uma tremenda ginástica para descongelar as motos que amanheceram cobertas de gelo, pilotamos até La Paz através do altiplano andino que, a meu ver, é o máximo que um motociclista pode conseguir em sensação de liberdade plena. La Paz é a capital mais alta do mundo, estando a 3700 metros sobre o nível do mar, e está cercada por picos nevados, cujo principal é o Ilimani, com 6402 metros de altitude. De La Paz fomos a Tiawanaku e apreciamos as ruínas pré-hispânicas de um povo que, segundo a lenda do deus Viracocha (que é o mesmo deus Inty do Equador ), deu origem a todo povo andino. Retornamos à La Paz aonde pernoitaríamos e aproveitamos para ligar para casa e matar um pouco a saudade. Na manhã seguinte continuamos nossa viagem, agora rumo a Copacabana, às margens do lago Titicaca, o mais alto lago navegável do mundo, a 3800 metros de altura. Disseram que suas águas são salgadas e não resistimos, fomos até suas margens geladas para experimentar as águas, porém não havia nada de salgado ali. O local era tão agradável que decidimos ficar passeando ali todo aquele dia e, na manhã seguinte, visitaríamos a Ilha do Sol. Assim foi. Vale aqui uma lembrança de duas aguardentes locais, uma de nome Singani e outra San Pedro que devem ser degustadas com refrigerante de limão. São simplesmente fantásticas! Saborosas, leves e deliciosas. Lembre-se, quando estiver passando por aquelas paragens, experimente, vale a pena. Naquela mesma tarde cruzamos a fronteira Bolívia-Peru, levando belas recordações do primeiro país. Entramos no Peru e seguimos, ainda no altiplano andino, até Cuzco, cidade núcleo do império Inca. Ali visitamos, durante os quatro dias que ficamos, o Vale Sagrado inteiro e tivemos oportunidade de conhecermos um pouco mais sobre aquela cultura encantadora. Aliás o povo peruano merece que tiremos o chapéu pra eles, devido à hospitalidade e ao carinho que demonstram para com nós, brasileiros. De Cuzco, partimos para a etapa mais arriscada de nosso roteiro. Retornando a Urcos, começamos a subida da cordilheira através de uma estrada íngreme, estreita, cheia de curvas e armadilhas. Seguindo o conselho de uma senhora aonde paramos para abastecer as motos, dormimos aos pés do monte Ocongate, em um povoado de nome Tinki.

TinkiTrajeto Tinki - Huallahualla

Apesar do horário, pouco mais de 15:30hs local, ela nos disse que não havia tempo para atravessarmos o pico e que, caso a noite nos pegasse nas alturas, estaríamos encrencados de verdade. No dia seguinte entendemos o que ela havia dito. De fato foram mais de duas horas de pilotagem muito tensa até Huallahualla, a 5500 metros sobre o nível do mar e mais outro tanto para descer. O vento era forte e cortante, a temperatura fazia com que nossas mãos e pés ficassem dormentes a maior parte do tempo. Isso sem falar de nossos lábios rachados e nossos rostos queimados pelo frio. Não havia nada que pudéssemos fazer, só rezar. Além disso, quando entrávamos em uma curva e olhávamos para o precipício, que muitas vezes mostrava-nos uma altura de 800 ou 1000 metros de queda caso errássemos alguma coisa, nosso coração chegava a diminuir o ritmo de suas batidas. Qualquer vacilo e tchau, adeus, a cordilheira não daria chances, como de fato não as dá, para quem erra. A descida nos colocou em pleno coração da floresta amazônica peruana. Houve trechos que tivemos que atravessar leitos de rios onde as águas chegavam quase na altura de nossas cinturas. Fora isso, a umidade fez, por algumas vezes, a estrada desbarrancar e tínhamos que esperar que alguma coisa fosse feita para conseguirmos atravessar.

florestaEstrada na Floresta Peruana

Depois, já de volta ao Brasil, Rio Branco (AC) e Porto Velho (RO), de onde partimos para Manaus (AM) de barco. No barco, enquanto subíamos o rio Madeira, passamos quatro dias avistando botos cor-de-rosa, muitas aves, a imensidão amazônica e as belezas mais encantadoras do planeta. Isso em um clima regado a muita cerveja e churrasco, sobretudo de peixe, o dia inteiro. Aquilo era como um prêmio pelo que já havíamos passado até aquele momento. De Manaus partimos para Boa Vista cruzando a reserva Waimiri Atroari.

RoraimaEm Roraima

Ali (na reserva) é proibido fotografar, mas demos um jeitinho de registrar a placa de boas vindas ao estado de Roraima. Aliás não poderíamos perder esta foto não é mesmo? Depois Santa Elena, na Venezuela, onde a gasolina é forte e barata. No retorno, decidimos continuar viagem até as 3:00hs da manhã para aproveitarmos aquela lua cheia que iluminava a estrada. Sabíamos dos riscos de animais silvestres cruzando a rodovia, então combinamos seguir em velocidade moderada e com muita cautela. Acabamos parando a poucos quilômetros da reserva indígena, pois não poderíamos cruza-la a noite, é proibido. Ficamos em um ponto de apoio de ônibus e os motoristas locais acabaram arranjando um quarto para nós. Nada de conforto, nada de cama, só um colchão velho e sujo no chão, mas com o cansaço, aquela hora, parecia que estávamos no melhor hotel de nossas vidas. Nem me lembro de termos comentado nada naquela noite. Tenho a impressão de que desmaiamos de vez. Uma beleza de noite bem dormida. Logo as 6:20hs da manhã acordamos e partimos rumo a Manaus, de onde embarcamos as motos para Belém. Três dias depois voamos ao encontro das nossas "meninas" e ficamos na casa de um outro amigo meu, o Boni (lembra dos amigos que encontrei lá no Peru, que cito no meu livro?), na cidade de Castanhal. Ficamos quatro dias lá e partimos pela Belém-Brasília em uma madrugada, antes do sol aparecer no horizonte, para as incríveis retas daquela estrada. O que quebrava a monotonia eram os buracos (muitos) que faziam com que os caminhões andassem em zigue-zagues constantes. Após os 3000 Km, chegamos a São Paulo sob uma chuva daquelas bem paulistanas. Na chegada, uma placa de boas vindas e nossos familiares todos reunidos a nossa espera fecharam com chave de ouro e muita emoção esta viagem. Agora sim, estávamos em casa para passarmos o Dia dos Pais com nossos pais. No meu caso, no dia seguinte, 11 de agosto, também passaria o aniversário de meu irmão Wilsinho, que, como nossos pais, estava torcendo e rezando para que tudo desse certo em nossa aventura. No total percorremos cerca de 14 mil quilômetros e, para falar bem a verdade, valeu a pena a escolha, tanto de estar de moto quanto do roteiro cheio de surpresas belas e emoções maravilhosas. A vida é assim, quanto mais a vivemos, mais descobrimos seus milagres e sua magia. Viver vale a pena! Deus nos abençoe a todos.

Valeu!!!

Wilton Almeida - E-mail: wraventura@uol.com.br