Viagem pela Europa
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O Vento-Um pedaço do Dia D: Só o vento tem o que dizer !

flávioFlávio Gomes

O que mais impressiona é o vento ! Talvez porque eu estivesse sob um capacete, tendo como única companhia o vento e o ruído do motor de uma lambreta. Naquela faixa do litoral norte da França, sessenta anos atrás, o pau comeu. Comeu brabo, tombou gente, metralhadoras cuspiram e granadas explodiram e miolos voaram e sangue jorrou na areia.

Sessenta anos atrás, apesar do barulho, creio que o que mais impressionava já era o vento e a solidão. Eram milhares, mas todos sós. Contra outros milhares de solitários. Numa guerra, não se fala. É apenas o combate, a morte, a sobrevivência e tentar voltar para casa. Um silêncio rumoroso, que na Normandia tem como trilha sonora só o vento.

Éramos quatro lambretas riscando a estrada com o mar à direita, na ida, à esquerda, na volta. Poderíamos ter feito a mesma coisa de carro, seria mais confortável e conversaríamos. Por alguma razão fomos de lambreta, cada um dentro do seu capacete e do seu silêncio, escutando o vento.

Até as lambretas, e depois delas, fomos quatro garotos que cruzaram a França e depois o Canal da Mancha dentro de um trem. Brincando como garotos, falando bobagens como garotos, cantando como garotos num ônibus que nos levasse a um acampamento de verão.

Mas naquelas lambretas, naquelas não sei quantas horas ouvindo o vento e o crepitar dos motores dois tempos, fomos apenas testemunhas tardias de algo que não vimos e custamos a acreditar que tenha acontecido em terras tão opressivamente silenciosas, naquelas horas não fomos garotos cantando e brincando, naqueles cem quilômetros eu só tive o vento como companheiro me contando algo que não sei bem o que é.

Os quatro garotos mal falaram sobre o que sentiram quando desligaram suas lambretas e foram procurar um lugar para jantar. Voltaram as bobagens, os casos, as risadas altas. Voltaram a ser garotos, como garotos eram aqueles cento e cinquenta mil que numa manhã de junho, sessenta anos atrás, desembarcaram naquelas praias em que pisamos sem coturnos ou uniformes, apenas com nossos tênis inocentes e nossas calças de brim.

Ninguém reclamou do vento, porque era ele, o vento, o único que tinha algo a dizer.

A Batalha da Normandia, que sucedeu o Dia D, ou Jour J, como dizem os franceses, se estendeu até o final de agosto de 1944. Americanos, ingleses e canadenses desembarcaram nas praias que hoje se chamam Utah, Omaha, Gold, Juno e Sword para retomar a França e abrir o caminho rumo ao leste, já que na ocasião a Alemanha apanhava feito cachorro vira-lata na frente russa.

normandiaNormandia

Na noite de 5 para 6 de junho três divisões aerotransportadas lançaram milhares de pára-quedistas para tomar uma ponte sobre o rio Orne, que era passagem fundamental para as tropas que viriam a seguir, nas primeiras horas da manhã. Foi onde paramos primeiro nossas lambretas, para tirar fotos e trocar olhares.

Essa ponte tem uma história, ao que parece de fato importante, mas não é o caso de ficar resumindo o passado para preencher espaço e insinuar um conhecimento que não tenho em detalhes. O Dia D é muito bem documentado, há centenas de livros sobre o assunto e alguns filmes esplêndidos, como O Resgate do Soldado Ryan. Se bem me lembro, o assisti há seis anos, a sequência inicial do desembarque tem quase meia hora e nenhum diálogo. Há, sim, muito barulho. E isso ficou na minha memória: o silêncio entre uma explosão e outra, e o vento soprando, sem que ninguém precisasse dizer nada além dele, o vento.

As praias, pelo menos o pouco delas que vimos, nós os das lambretas, são lineares e por alguma razão cinzentas, apesar do céu azul e do sol insistente e ardido nos olhos do começo de julho, frio, embora seja verão. Dá uma sensação esquisita visitar um lugar onde a história do mundo foi decidida. Nós os das lambretas não éramos nascidos em 1944, mas devemos nossas histórias pessoais ao que aconteceu naquelas areias há sessenta anos. Ali a Segunda Guerra começou a ser vencida pelos Aliados e é impossível não recorrer a clichês para descrever a importância dessa vitória. Por isso, preferível é não descrever porra nenhuma.

Na minha lambreta, já com o mar à esquerda, voltando a Deauville e ouvindo o vento, fiquei a pensar se os outros três garotos nas outras lambretas escutavam o mesmo que eu. Não formulei nenhuma imagem sangrenta nem heróica, é bem difícil visualizar tanques, morteiros, canhões, jipes e metralhadoras numa região tão bela e melancólica.

É meio pesado, me disse um, e todos concordaram, e acho que foi tudo que conseguimos entender do que nos disse o vento sob o capacete, para depois pedirmos um vinho e mariscos com batatas fritas e seguir com nossas palhaçadas de garotos cruzando a França para ir à Inglaterra, com uma parada na Normandia para escutar o vento.

(Estas quase duas semanas que passamos na Europa entre as corridas de Magny-Cours e Silverstone foram memoráveis do início ao fim. Talvez eu devesse narrá-las dia a dia, como conviria a um diário, citando nomes conhecidos e desconhecidos dessa turma inigualável que cobre F-1 para que um eventual leitor se aproximasse um pouco desse nosso universo. Seria muito mais interessante do que divagar sobre o vento na Normandia, não há nada mais falso do que imaginar que há alguma mensagem cheia de significados no que sai da minha cabeça, esta sim de vento. Seria bem mais interessante traçar um roteiro começando numa cidade e terminando em outra, Nevers, Bourges, Vierzon, Orléans, Chartres, Dreux, Evreux, Lisieux, Caen, até mencionando nossos pequenos chistes como Allones, a cidade onde todos vivem sozinhos, e não tinha ninguém na rua, mesmo, ou Deauville, assim batizada porque é lá que as mulheres dão. Seria certamente mais interessante traçar uma linha cronológica que incluísse o churrasco à beira do lago na casa de pedra, o vinho passando de mão em mão, a maionese que sobrou, a camaradagem irrestrita e incondicional, os duelos verbais, a torcida por Portugal, os quilômetros e quilômetros por estradas nunca antes percorridas, as paradas para fotos com tripé e tudo, a van pichada com espuma de limpar vidro, a santa descoberta que a todos impressionou, as blasfêmias hediondas minutos depois seguidas de uma devoção ímpar, os mapas rabiscados, a máquina de pescar bichos de pelúcia, o hotel sem porteiro ou telefone, o cybercafé, o orkut, o bate-estaca romeno que virou hino, as casamatas que imaginamos sem ver, as gaivotas em Calais, a feiúra de Calais, o túnel sob o canal, a volta do amigo que não vinha havia tanto tempo, o pato chinês, a besteira, enorme besteira que fiz, tudo isso que ficará gravado na minha memória de forma indelével, mas a cada dia que passa concluo que sou menos capaz de contar coisas com um mínimo de precisão, daí que peço clemência ao que lê e nada entende, porque eu mesmo, ultimamente, não entendo mais nada e apenas escrevo para tentar me entender, o que só piora as coisas.)

Flávio Gomes