Viagem pela Europa
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14 Dias de Moto Pela América do Sul!

Apresentação

Após anos de trabalho, entendi que era o momento propício de empreender algo diferente do convencional, como por exemplo, uma viagem mais longa de moto. Em conversa com um amigo que também gosta de aventuras começamos a traçar planos. Primeiramente pensamos ir ao Nordeste Brasileiro onde há praias muito belas. Depois surgiu a idéia de conhecer o Chile, principalmente motivados pela travessia da Cordilheira dos Andes e Região dos lagos e vulcões ao Sul daquele País. Definido o roteiro, tratamos de fazer um planejamento mínimo, porém necessário, tal como, roupas e equipamentos adequados, locais a serem visitados no decurso da viagem, revisão das motos, etc.

1º Dia - 04/03/98 (quarta-feira)

Partimos de Florianópolis-SC, às 10h. Eu, com uma Kawasaki Vulcan 750, e meu amigo João Henrique, com uma Suzuki Marauder 800, cujo odômetro marcava exatamente 1.152 km. De Florianópolis, seguimos direto a Santo Ângelo - RS, chegando naquela cidade por volta das 21h para o primeiro pernoite, o qual deu-se na casa da sogra do meu amigo, com todas as mordomias que o mesmo tinha direito.

2º Dia - 05/03/98 (quinta-feira)

Partimos de Santo Angelo às 09h, não sem antes visitar as Ruínas de São Miguel, um dos "7 Povos das Missões". Surgiu um primeiro pequeno problema: o cabo do velocímetro da minha moto quebrou, obrigando-me a controlar a velocidade apenas pelo tacômetro, o que não chega a ser um impecilho, pois substituir o mesmo na região seria impossível. Andamos algumas dezenas de quilômetros e, quando paramos num posto de serviços para abastecer, observo que uma das minhas mochilas estava com um bolso aberto, exatamente aquele onde guardava o carregador de bateria da minha câmara de vídeo. O que aconteceu foi o seguinte: numa parada à beira da estrada, esqueci de fechar corretamente o zíper do bolso da mochila. Adeus carregador! Onde comprar outro? Pensei comigo: "quando acabar a bateria, seja o que Deus quiser!". Passamos por São Borja, terra de Getulio Vargas, cruzando a nova Ponte Internacional que liga o Brasil à Argentina.

Fronteira Brasil/Argentina Fronteira Brasil/Argentina

Iniciamos nosso trajeto internacional em asfalto regular, fortes ventos laterais e chuva. Quando chegamos a Paso de Los Libres, procuramos adquirir outro carregador, mas não obtivemos sucesso. Saindo da cidade, num posto de abastecimento, meu amigo João Henrique acreditou que sua moto se equilibrava apenas sobre duas rodas, fazendo com que a mesma quase fosse ao chão. Andamos mais alguns quilômetros e a "Polícia Caminera" argentina fez sinal para parar. Como não somos habituados a parar sobre a pista, fomos ao acostamento, o qual, sem percebermos, era uma terra fofa e lamacenta de aproximadamente 15 cm de profundidade. Concluindo, os próprios policiais sentiram-se na obrigação que ajudar a desatolar as motos, dispensando a vistoria e mandando seguirmos adiante. Às 21h, chegamos numa localidade denominada Vila Federal, onde fizemos nossa primeira ligação internacional para casa.

3º Dia - 06/03/98 (sexta-feira)

Acordamos cedo e fizemos alongamento, pois, afinal, o corpo precisa estar em forma. Saímos do hotel sob uma chuva que insistia em ficar cada vez mais intensa. Quando chegamos à cidade de Paraná, 230 km adiante, nas partes baixas da pista, a água corria como um rio, o que exigia muita atenção. Cruzamos o túnel sob o Rio Paraná que liga a cidade homônima à Santa Fé (uma bela cidade). Mais uma procura infrutífera do carregador. Após Santa Fé, a rodovia é excelente e a paisagem muito bela, dando a impressão de uma próspera região agrícola. Às 21h, chegamos em Villa Maria, onde, num posto de abastecimento, ocorre outro fato hilário: resolvemos tirar foto das nossas motos ao lado de uma dessas "motoquinhas" de baixa cilindrada pertencente a uma moça da lanchonete. Prá quê! Meu amigo João Henrique novamente cismou que sua moto se equilibrava sozinha sobre as duas rodas e... Pronto! Desta vez a máquina foi mesmo ao chão, porém, nada de grave aconteceu (a foto saiu). O odômetro marcava 1.923 km desde Florianópolis.

4º Dia - 07/03/98 (sábado)

Saímos de Villa Maria somente às 09h, pois o dono do hotel que iria nos acordar às 6h perdeu a hora. Seguimos em direção à Rio Cuarto, região aparentemente próspera e com tráfego intenso de caminhões. Inicia-se um trajeto de estradas retas, planas e muito bem conservadas. Após a cidade de San Luis, a região assemelha-se ao "cerrado" do nosso Centro-Oeste, vendo-se muitos parreirais, principalmente mais próximo a Mendoza. Chegamos a Mendoza às 19h, uma cidade bonita e requintada, localizada ao sopé da Cordilheira dos Andes. À noite, fomos conhecer o centro da cidade observando o grande movimento de pessoas nas praças muito bem cuidadas.

5º Dia - 08/03/98 (domingo)

Gostamos tanto de Mendoza que, pela manhã, resolvemos dar mais umas voltas pelo centro. Chamou-nos atenção as canaletas paralelas às ruas, onde corre água do degelo dos Andes mantendo uma exuberante arborização, apesar de praticamente não chover na região. A seguir, fomos até uma colina onde está situado o "Cerro de La Glória", um magnífico monumento em homenagem ao "Exercito dos Andes". Por volta das 09h30min, partimos de Mendoza em direção à Cordilheira. Inicia-se uma paisagem cada vez mais interessante, cuja estrada segue margeando o Rio Mendoza. Após uns 100 km, surge magnífico no horizonte, o primeiro pico nevado.

Primeira imagem dos Andes Primeira Imagem dos Andes Próximo ao Aconcagua Próximo ao Aconcagua

Para quem aguardava ansioso esta vista, é hora de sacar das câmaras e começar a filmar e fotografar (até aí a bateria da filmadora continuava resistindo heroicamente). Os picos nevados vão ficando cada vez mais próximos e cada vez mais magníficos.

Numa localidade denominada "Los Penitentes", observamos um teleférico que sobe das margens da rodovia até uma altitude de 2.800 metros. Lá fomos nós, pois do alto, apesar do vento frio, a vista é espetacular. Quando estávamos no teleférico, foi chegada a hora da heróica bateria encerrar suas atividades. A partir daí iríamos apenas fotografar. Cruzamos magníficos túneis e chegamos à fronteira da Argentina com o Chile. Controles rigorosos na aduana, inclusive com revista dos nossos pertences. Quando estava acomodando minhas coisas sobre a moto, após a revista, e, talvez por influência do meu amigo João Henrique, também acreditei que minha moto se equilibrava apenas sobre duas rodas. Não deu outra, foi ao chão! Aproveitei para dizer uns impropérios em português aos policiais que fizeram a revista, cuidando para que não ouvissem (Vá que entendessem!).

Iniciamos a descida da Cordilheira no lado chileno que, ao contrário da subida no lado argentino, é de declive abrupto. Lembramos de tomar muito cuidado com as normas de trânsito no Chile, uma vez que havíamos sido informados quanto a sua rigorosidade. Por volta das 20h, estávamos em Santiago saboreando uma "Parrillada".

6º Dia - 09/03/98 (segunda-feira)

Levantamos cedo e fomos procurar local adequado para manutenção de rotina nas motos, pois, afinal, era chegada a hora de uma merecida atenção às máquinas. Consegui consertar o cabo de velocímetro e, finalmente, adquirir outro carregador para a câmara.

Chamou-nos atenção a Capital Chilena (grande, trânsito aparentemente organizado, ruas bem sinalizadas, prédios magníficos, etc.). Por volta das 16h30min, partimos em direção à Valparaíso e Viña Del Mar, cidades situadas à costa do Pacífico, apreciando, pela primeira vez, o magnífico pôr-do-sol. Meu amigo João Henrique não resistiu e teve que mergulhar nas águas frias do Pacífico, pois pretendia deixar registrado que, a partir daí, era homem de dois mares. Retornamos à Santiago por volta das 23h30min para pernoitar. O odômetro registrava 3.424 km desde a saída.

7º Dia - 10/03/98 (terça-feira)

Antes de partir em direção ao Sul do Chile, fizemos algumas fotos no palácio do governo (La Moneda), coincidentemente, no mesmo dia em que o Pinochet "se aposentou". Passamos direto por Rancagua e Talca, importantes cidades após Santiago, pois nosso objetivo era chegar a Temuco, onde começa a Região dos Lagos.

Seguimos em direção a Chillan, outra cidade de porte em direção ao sul, sempre observando a bonita paisagem e as características da região, a qual nos pareceu muito diversa, ou seja: reflorestamentos, muita infra-estrutura para camping, grandes parreirais, etc. Às 22h, chegamos em Temuco como pretendido.

8º Dia - 11/03/98 (quarta-feira)

Uma semana de estrada. Acordamos cedo, como sempre, tanto para ir ao centro da cidade para observar melhor suas características bem como para procurar uma casa de câmbio. Enviamos postais para a família e amigos e seguimos em direção a Villarica, onde conheceríamos o primeiro lago. Na metade do trajeto, surge no horizonte, o vulcão homônimo, com seu pico nevado, mostrando toda a sua imponência. É outra vista exuberante, similar àquela do início da travessia da Cordilheira. Cheguei à Villarica praticamente sem combustível, numa das primeiras imprudências desse gênero. A vista próxima ao lago cristalino cercado de pinheiras com o vulcão ao fundo é indescritível, coisa de cartão postal. Seguimos depois para Pucon, sempre com o lago à esquerda e o vulcão à direita, observando a magnífica infra-estrutura voltada ao turismo, como cabanas, áreas para camping, restaurantes e um magnífico cassino no centro da cidade. De Pucon, seguimos para outro lago menor, denominado Lincarey, belo, porém, não é tão exuberante quanto o anterior. Dessa localidade, seguimos em direção a Panguipulli por uma estrada não pavimentada, cerca de 40 km, o que exigiu muita atenção, uma vez que nossas motos não são adequadas para esse tipo de estrada. Desses últimos locais visitados, que estão ao Leste (lado da Cordilheira), seguimos em direção ao Oeste (Pacífico) rumo à Valdívia e, mais adiante, até Los Molinos, jantando num restaurante com uma vista magnífica do pôr-do-sol do Pacífico, que é outra coisa maravilhosa, retornando à Valdívia para pernoite.

Em Valdívia, enquanto eu negociava a estadia num hotel, meu amigo João Henrique, que ficou cuidando das motos, facilitou com um dos curiosos que sempre estavam admirando as máquinas e, "pluft", sumiu suas luvas de estimação, adquiridas em Temuco para enfrentar o frio.

9º Dia - 12/03/98 (quinta-feira)

Seguimos rumo à Osorno, outra cidade importante da região sul do Chile. Pela primeira vez enfrentamos um pouco de neblina e, desta forma, passamos direto pela cidade em direção a Puerto Varas, local exuberante de colonização alemã. Para nossa sorte, o tempo ficava cada vez melhor. Seguimos em direção ao famoso vulcão Osorno, distante 40 km. Novamente paisagens de cartão postal e muita infra-estrutura ao longo do caminho. Como já havia feito anteriormente (porém não recomendo), em determinados trajetos, dado à beleza da paisagem, acelerava com uma mão e filmava por alguns instantes com a outra (as cenas ficaram incríveis). Após o término da estrada pavimentada, bastante próximo do vulcão, retornamos à Puerto Varas, prosseguindo a até Puerto Montt, nosso ponto mais extremo ao Sul do Chile. O odômetro marcava 4.570 km percorridos desde a saída.

O Retorno

Iniciamos o retorno até a cidade de Osorno, a partir da qual seguimos rumo ao Leste em direção a San Carlos de Bariloche, na Argentina, ou seja, nossa volta a partir dali seria feita por um caminho diferente da ida. Após Osorno, surge magnífico o lago Puyehue, também com muita infra-estrutura voltada ao turismo. Após o lago, adentramos o parque nacional homônimo em busca de um pernoite, achando que era chegada a hora de armar uma pequena barraca tipo Iglu que levávamos, até então inativa, mas o frio no local (bastante alto) não era convidativo para esse tipo de acomodação. A grana também estava curta, pois sempre que saíamos de um país, cuidávamos para não levarmos junto sua moeda, nem sempre bem aceita nos postos de abastecimento do outro país. Terminamos pernoitando na casa de um dos funcionários do parque, indo antes fazer um lanche num pequeno e acolhedor restaurante existente, pretendendo gastar o restante dos pesos chilenos. Terminamos o lanche na maior integração com outras pessoas que jantavam no local: dois casais argentinos e um italiano.

10º Dia - 13/03/98 (sexta-feira)

Saímos bem cedo do parque, enfrentando, talvez, o trajeto mais frio até então. Meu amigo João Henrique lastimava incessantemente o "desaparecimento precoce" de suas luvas. A partir da fronteira do Chile com a Argentina, iniciamos por uma estrada sem pavimentação, porém de boa conservação.

No lado argentino, surgem incríveis lagos tão belos quanto aqueles do Chile. Esperávamos mais da cidade de Bariloche, porém acreditamos que essa frustração deu-se em função da época sem neve. De qualquer forma é uma cidade interessante.

Centro de Bariloche Centro de Bariloche

Após Bariloche a paisagem é bastante diferente, com a rodovia margeando um rio caudaloso à direita e um solo com aspecto de deserto e de muitas rochas pontiagudas à esquerda. Fomos terminar o dia numa localidade denominada Arroyto, já próximo a Neuquen, importante cidade da região.

Um fato que nos chamou a atenção, tanto na Argentina quanto no Chile, desde o percurso da ida, eram os veículos que faziam constantes sinais de luz ou buzinavam cumprimentando-nos. Por sua vez, em todo local por onde parávamos havia muita curiosidade em relação às motos e ao percurso realizado, além de curiosidades sobre nossas coisas mais marcantes no exterior, como carnaval, samba, futebol, Pelé, Romário, Ronaldinho, etc.

11º Dia - 14/03/98 (sábado)

Saímos, mais uma vez bem cedo, passando reto por Neuquen e Rio Negro, a última conhecida pela produção de maçãs. Observamos que, até então, estávamos com sorte pelo fato de não ser incomodados por policiais rodoviários, o que, segundo consta, principalmente na Argentina, procuram sempre achar um motivo para multar turistas. Observamos também que, no Chile, os mesmos são extremamente educados e cordiais. Da cidade de Chlloe Chlloe até Rio Colorado, cerca de 140 km, a estrada é incrivelmente plana e reta. Passamos direto por Bahia Blanca, cidade portuária localizada ao sudoeste da Argentina, indo pernoitar em Benito Juarez, cerca de 400 km antes da Capital.

12º Dia - 15/03/98 (domingo)

Chegamos em Buenos Aires por volta das 14h, fotografamos e filmamos pontos de destaque como a Casa Rosada, Av. 9 de Julho, 31 de Maio e Corrientes, além do Congresso. A cidade, com suas largas avenidas, nos impressionou. Procuramos informações de como seguir viagem até Colônia no Uruguai, via Ferry-Boat, sendo que, para nossa sorte, havia uma dessas embarcações de saída e, zás, lá estávamos sobre a Bacia do Prata, cuja extensão é de 45 km, deixando Buenos Aires para trás. A travessia tantos nos surpreendeu pela beleza quanto pelo alto preço, cerca de U$ 140 pelas duas motos, porém não tínhamos outra opção. Do porto de Colônia, partimos direto para Montevidéo, distante apenas 180 km. Nesse trajeto, chamou-nos a atenção o grande número de carros antigos em circulação. A Capital Uruguaia é uma cidade bonita, com intensa vida noturna, característica da maioria das cidades por onde passamos, bem como de muitos contrastes entre prédios modernos e antigos, esses cuidadosamente conservados/restaurados.

13º Dia - 16/03/98 (segunda-feira)

Saindo de Montevidéo em direção a Punta Del Este, a rodovia segue margeando o Mar Del Plata oferecendo um vista muito bonita da Capital Uruguaia. Passamos por Punta Del Este que é bonita e requintada. Por volta das 16h30min, estávamos na fronteira do Uruguay com o Brasil, em Chuí, nosso ponto extremo ao Sul. Procuramos um marco de fronteira para as costumeiras fotos, porém não o encontramos. Seguimos adiante indo pernoitar próximo à Pelotas, já com aquela sensação de estar pertinho de casa, ainda distante cerca de 700 km.

14º Dia - 17/03/98 (terça-feira)

Partimos novamente cedo, passando direto por Porto Alegre, parando apenas para fazer uma foto sobre a Ponte do Guaíba. Como já estávamos com saudade de uma chuvinha, eis que a essa resurge no último dia de viagem, porém de forma esporádica, diferente daquela enfrentada na ida quando do ingresso na Argentina. Por volta das 18h30min, estávamos na cabeceira da ponte Colombo Sales, em Florianópolis, fazendo as últimas fotos.

Conclusão

Após exatos 8.137 km percorridos em 14 dias através do Brasil, Argentina, Chile e Uruguai, perfazendo uma média diária de 581 km, consideramos a aventura um sucesso, a qual superou em tudo nossas expectativas.

(Veja matéria publicada no Diário Catarinense, edição de 12/04/98, clicando aqui)