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Dois Teimosos e a Carretera Austral - 2006

Os Teimosos: Piloto e Moto

O INÍCIO

Primeiramente devemos esclarecer que os dois teimosos referidos no título deste relato são o próprio autor viajante, que conseguiu percorrer um trecho da Carretera Austral apenas na 4ª tentativa e o outro (no caso outra), sua inseparável Honda Sahara que em duas ocasiões ficou na Patagônia Argentina, como se não desejasse retornar ao Brasil.

Tudo começou em 2003, quando planejamos viajar até Ushuaia e retornar pela Carretera Austral. Chegamos ao destino, porém no retorno, em plena Ruta 40, em função das péssimas condições da estrada, agravadas por uma nevasca repentina, caímos e a Sahara retornou de carona, conforme relato publicado neste Site

Em 2005, com outra moto, uma BMW F650, resolvemos que faríamos o percurso faltante, ou seja, a Carretera Austral, porém ao chegarmos em El Bolson, após Bariloche, as informações eram de muita chuva naquela região, de forma que, por prudência, desistimos.

Nos dois projetos anteriores houve a participação da esposa, a qual, nessas alturas, estava cansada dessa “estória” de Carretera Austral, de forma que em Dez/05, novamente com a Sahara, resolvi, sozinho, perseguir esse objetivo, considerando que, desta vez, a esposa não poderia me acompanhar.

Assim resolvido, afinal teimoso é uma espécie incurável, parti no dia 14 de Dezembro por trajetos já conhecidos, de forma que era tão somente “andar” e “andar”. De Florianópolis, fui pernoitar em São Borja-RS, distante 850 km. No dia seguinte mudei um pouco o itinerário e ao invés de ingressar na Argentina por essa localidade ou mais adiante, em Uruguayana, resolvi seguir em direção a Barra do Quaraí, nosso ponto extremo ao Sul, porém no lado oeste.

Fronteira Brasil - Uruguay (Barra do Guaraí) Fronteira Brasil - Uruguay (Barra do Guaraí)

Pouco mais de uma centena de quilômetro em solo uruguaio, ingressei na Argentina pela aduana de Payssandu. Novamente localidades conhecidas como Concórdia e Zarate, indo pernoitar em Lujan, adiante de Buenos Aires.

De Lujan, ao invés de seguir por caminhos conhecidos, tomei a Ruta 5, uma rodovia que segue praticamente paralela a Ruta 22, mais abaixo, pois sempre que possível, busco caminhos alternativos. A moto parecia “redonda”, principalmente pelo fato de utilizar pela primeira vez protetores auriculares, reduzindo sensivelmente o barulho externo. Reduziu tanto o barulho externo que não percebi o motor “batendo” por absoluta falta de óleo, uma falha imperdoável causada por excesso de confiança, tanto na moto, quanto no mecânico que fez a revisão antes da viagem.

Fui rebocado por mais de 100 km (numa corda) por uma velha camionete, pernoitei na primeira localidade e no dia seguinte contratei um socorro até Cipolletti, cidade praticamente anexada a Neuquém, em plena Patagônia Argentina, onde deixei a moto aos cuidados de um mecânico, não sem antes fazer o possível e o impossível para tentar recuperá-la. Ocorre que trata-se de um modelo não existente na Argentina, de forma que a melhor solução foi retornar ao Brasil e posteriormente enviar as peças necessárias. Na verdade as únicas partes que sobraram intactas no motor foram a biela e o virabrequim.

Sahara Sendo Socorrida Sahara Sendo Socorrida

A CONTINUAÇÃO DA VIAGEM

O ocorrido me deixou novamente com aquela terrível frustração, afinal era a 3ª tentativa de chegar à Carretera Austral. A única vantagem disso tudo foi conseguir passar Natal e Ano Novo com a família e, inclusive, fazer uma pequena viagem de triciclo com a esposa até Gramado.

Retornei às atividades do dia-a-dia, ao mesmo tempo em que monitorava o envio e recebimento das peças na Argentina. Por sorte, o mecânico que estava cuidando disso tudo demonstrou, desde o início, interesse em resolver a situação.

Às vésperas do “feriadão” de Carnaval, fim de Fevereiro, fui informado que a moto achava-se devidamente recuperada. Tínha a opção de simplesmente buscá-la ou, se fosse o caso, continuar a viagem interrompida.

Teimoso que é teimoso não desiste, de forma que resolvi continuar a viagem. Por quê não ?

Tinha confiança no serviço executado pelo mecânico, de forma que foi montar e seguir adiante. Como esse seqüência de viagem também era em trajeto já conhecido, apenas algumas paradas para fotografar, como por exemplo a bela paisagem antes de Bariloche.

Belas paisagens nas proximidades de Bariloche /Belas paisagens nas proximidades de Bariloche

De Bariloche segui em direção a El Bolson, de onde havíamos retornado em Abr/05, e a seguir Esquel, donde ingressei pelo rípio em direção ao Passo de Futaleufu, isso em pleno sábado, o que impossibilitou cambiar U$ por Pesos Chilenos. De qualquer forma segui adiante, preocupado apenas em relação ao tempo que demonstrava a possibilidade de chuvas, comuns nessa Região.

O rípio, como suspeitava, permite andar sem maiores preocupações, desde que não se abuse da velocidade. Não demora muito e uma chuva fina começa e cair, tal qual a temperatura. Parei num pequeno pueblo até que essa diminuísse e segui adiante até encontrar a tão esperada Carretera Austral, cujo entroncamento acha-se a aproximadamente 80 km abaixo de Chaiten, com placa indicativa de 339 Km até Coyhaique. Lá estava para enfrentar o trajeto há muito pretendido.

Enfim, a Carretera Austral ! Enfim, a Carretera Austral !

Nenhuma surpresa com o rípio da Carretera. Continuava sim a preocupação com o tempo instável, afinal, com chuva a bela paisagem fica seriamente comprometida, porém, com ou sem chuva seguiria adiante. Aqui acolá uma foto, até que em La Junta a chuva veio pra valer, com frio cada vez mais intenso. Mesmo com roupas de boa qualidade, a umidade acentuava o frio, de forma que já sabia o que viria pela frente.

Sem dúvida, a região é belíssima, porém com chuva tudo fica cinzento e não motiva ninguém a percorrer suas imediações para conhecer as belas atrações do trajeto. Por sua vez, estava correndo contra o tempo, pois retornaria às atividades na semana após o Carnaval e estava a mais de 5.000 km de casa, de forma que o principal objetivo era tão somente “andar pela Carretera Austral”. Suas belezas poderão ser apreciadas em futuras viagens (com sol, espera-se !)

Em algum ponto do trajeto Em algum ponto do trajeto

Com muito frio, ao entardecer tinha vencido os 339 km até Coyhaique onde pernoitei no primeiro hotel que apareceu, o qual, apesar de simples, tinha calor, inclusive calor humano !

No dia seguinte fiquei em dúvida entre seguir até Chile Chico, contornando o Lago Buenos Aires ou cruzar a fronteira por Coyhaique Alto e partir em direção a Rio Mayo, na Argentina. Como o tempo continuava cinzento, optei pela segunda alternativa, agora por um rípio secundário até a fronteira, o que exigia mais cautela.

Da fronteira até Rio Mayo foram 123 km de rípio mais solto, uma característica desse tipo de estrada na Argentina, com ventos fortes que sopravam no sentido oeste – leste, ou seja, a meu favor. Caso esse fosse lateral, alguns tombos seriam inevitáveis nesse trajeto.

Rio Mayo Rio Mayo

A partir de Rio Mayo a estrada é pavimentada até Comodoro Rivadávia, cidade situada na costa do Atlântico, onde pernoitei. Estava a 3.600 km de casa, de forma que necessitava de pelo menos 4 dias para chegar, desde que fizesse pelo menos 900 km/dia, o que não seria difícil dadas as excelentes estradas a partir desse ponto. Parti bem cedo de Comodoro Rivadávia, com a bela visão do nascer do sol, quebrando a monotonia da paisagem árida da Patagônia.

Belo amanhecer na saída de Comodoro RivadáviaBelo amanhecer na saída de Comodoro Rivadávia

De Rio Colorado mais uma quilometragem equivalente, vindo a pernoitar em Zarate, cidade que está 100 quilômetros acima de Buenos Aires. Um detalhe importante é que, agora, examinava o nível do óleo praticamente em toda parada para abastecimento, ou seja, não seria por falta de óleo que ficaria na estrada novamente. Aliás, devo ter colocado tanto óleo no motor que comecei a observar o rompimento de alguns retentores, deixando o motor com um aspecto simplesmente horroroso.

Estava no trajeto em que a Policia Camiñera costuma incomodar os motociclistas. Não demora muito e numa barreira pedem o Seguro Carta Verde. Fiquei preocupado, pois estava com o mesmo vencido, uma vez que esse foi emitido apenas para 30 dias quando da viagem em Dezembro. Por sorte o policial não percebeu isso e me liberou. A partir daí não fui parado novamente, indo pernoitar em São Luiz Gonzaga, já no Rio Grande do Sul.

Complexo Viário em ZarateComplexo Viário em Zarate

Uma vantagem de estar no Brasil é comer nosso tradicional arroz e feijão. A desvantagem são os tradicionais buracos no asfalto e gasolina custando quase 1,5 dólar por litro, quando pagava praticamente a metade disso na Argentina, sem contar que mais ao Sul do País vizinho essa custa ainda mais barato.

Após exatos 5.000 quilômetros percorridos desde Cipolletti, os dois teimosos estavam em casa, sãos e salvos e com a boa sensação de, pelo menos, ter andado cerca de 400 km no rípio da Carretera Austral. Suas belas atrações certamente serão vista noutra oportunidade.

Patagônia Argentina: Bela Paisagem e Boas EstradasPatagônia Argentina: Bela Paisagem e Boas Estradas

Cícero