Viagem pela Europa
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De Florianópolis a Rondonia - 2006

Considerações

O objetivo deste relato é mostrar um pouco mais sobre viagens pelo Centro Oeste Brasileiro, principalmente o trajeto a partir de Campo Grande em direção ao Estado de Rondônia, pouco relatado, porém que possui suas particularidades atrações e desafios.

Dada a extensão continental do nosso País, essa viagem, tendo como ponto de partida Florianópolis, Capital do Estado de Santa Catarina, onde residimos, equivale praticamente a uma viagem até Santiago do Chile, considerando o mesmo ponto de partida.

Aparentemente, a segunda opção parece oferecer maior desafio, o que, respeitadas suas particularidades, não corresponde à verdade. São regiões, até certo ponto similares, pois se percorrem grandes extensões para atingir um objetivo, quase sempre por estradas monótonas, uma característica tanto do nosso típico Centro Oeste, quanto dos Pampas Argentinos. O grande diferencial é a conservação das rodovias. Enquanto nos países circunvizinhos essas possuem boa manutenção, no Brasil ocorre exatamente o contrário.

Em nosso caso específico, mesmo em se tratando de uma região bastante conhecida, afinal residimos por quase 5 anos em Campo Grande, Capital do MS, nossas viagens por esse trajeto, em sua maioria, foram de automóvel. As poucas vezes que passamos de moto pelo trajeto foram em circunstâncias especiais e pouco relatadas.

De qualquer forma, trata-se de um trajeto de grandes atrações, dentre os quais, podemos destacar: proximidade de Campo Grande com Bonito e Corumbá (MS), a Chapada dos Guimarães (MT) e mesmo em Rondônia, para os mais radicais, o desafio de percorrer o trajeto entre Porto Velho e Manaus por estradas praticamente abandonadas na Amazônia, ou seguir em direção ao Acre, um Estado localizado num dos extremos do País.

Feitas essas considerações, utilizando tão somente 10 dias de férias e a necessidade de rever familiares que residem na cidade de Pimenta Bueno, em RO, localizada 200 quilômetros adiante da divisa MT/RO, procuramos observar maiores detalhes do trajeto sob a ótica do motociclismo, de forma que outros que pretendam viajar pela Região possam ter alguns parâmetros.

Bela Saída - Incovenientes Pedágios!

Com a esposa, habitual companheira, mesmo com um dedo quebrado em função de um jogo de voley, partimos num sábado, 1º de julho de 2006, dia de jogo da Copa do Mundo e data na qual o Brasil estaria predestinado, mais uma vez, a perder para a França. Tínhamos o intuito de fazer, pelo menos, 900 quilômetros no primeiro dia, pois o percurso de 3.000 quilômetros deveria ser vencido em 3,5 dias.

Sair de Florianópolis com o nascer do sol é sempre algo magnífico, boa oportunidade de apreciar o belo nascer do sol contrastando com a quietude do mar, emoldurado por barcos ancorados, enfim, um bela visual, como convém a uma boa viagem de moto.

De Curitiba seguimos em direção a Ponta Grossa, rodovia pedagiada, inclusive para motos. Na primeira estação de pedágio, fiz a maior “cera” enquanto a fila crescia, tanto que minha companheira reclamou para que eu agilizasse, quando pensava exatamente o contrário, ou seja, queria protestar de alguma forma. Por volta do meio dia estávamos em Ponta Grossa, percorridos cerca de 400 quilômetros, de forma que teríamos condições de fazer a quilometragem planejada para o dia.

Seguimos em direção a Ourinhos (SP), porém antes dessa cidade rumamos em direção oeste, de forma que saíssemos adiante dela. Essa opção não se mostrou a mais acertada, afinal, são trajetos servidos por rodovias secundárias, além de que nessas pequenas cidades existem mais quebra molas do que gente. Sem dúvida, os trajetos por rodovias principais, mesmo que mais longos, são opções mais sensatas.

Estávamos ao final do dia e seguíamos pela Rodovia Raposo Tavares em direção à Presidente Prudente, adiante 90 quilômetros. Como não viajamos a noite, pouco antes dessa cidade paramos num pequeno hotel de beira de estrada, cuja aparência nos agradou, onde fizemos nosso primeiro pernoite. Havíamos percorrido cerca de 900 quilômetros desde Florianópolis, como planejado, tudo na maior normalidade.

Asfalto e Caminhões

A Rodovia Raposo Tavares, que noutras ocasiões em que passamos era um tapete preto estava bastante deteriorada, além de pedagiada, menos para moto. Aliás, os motociclistas só não escapam de pedágio no Paraná. Sinceramente, algo difícil de compreensão.

A ponte sobre o Rio Paraná, que divide os Estados de SP e MS, é algo que chama a atenção pela sua extensão, pois nesse ponto o rio parece um mar. Ao se ingressar no MS, o asfalto se apresentava bastante remendado e com tráfego intenso de caminhões. Fiquei imaginando andar nesse trajeto com uma moto “custom”, pois apesar da boa suspensão da XT, nossa “poupança” começou a dar sinais de fadiga após alguns quilômetros.

Em Nova Alvorada, onde há o entroncamento para o sul do MS, mais uma vez, paramos para fazer uma foto, o que já é tradição nesse local. A primeira foi em 1982, quando da viagem de Laranjeiras do Sul (PR) a Cuiabá (MT) com uma CB400 e a segunda, em 2002, quando da viagem ao Peru, via Estado do Acre, com a fiel Sahara.

Hora do almoço, nas imediações de Campo Grande, evidentemente, paramos na primeira churrascaria à beira da estrada e não nos arrependemos. Nessa Região a carne, normalmente, não é congelada, o que faz toda a diferença. Passamos rapidamente pelos locais onde residimos entre 1986 e 1991, apenas para tristeza de ver nossas ex-casas em estado lastimável. Fazer o quê !. Seguimos adiante, com o objetivo de chegar em Coxim, próxima à divisa com o MT. Sempre tive vontade de parar nessa Cidade e experimentar um bom peixe de água doce, afinal, trata-se de um local muito procurado pelos amantes da boa pesca. No hotel nos indicaram um restaurante, porém, para nossa decepção, comemos peixe que nos pareceu congelado. O que salvou foi experimentar carne de jacaré, porém em termos de peixe, ficamos decepcionados, ou seja, parar em Coxim para comer peixe, nunca mais!

Pela manhã do dia seguinte, após Coxim, enfrentamos muita neblina e um tráfego intenso de caminhões, porém com cuidado seguimos em frente. O nascer do sol sobre a neblina compensou tudo isso

Na hora do almoço estávamos nas imediações de Cuiabá e para nossa surpresa o clima continuava agradável, pois essa é uma região de calor intenso. Na saída de Cuiabá, numa barreira policial, um guarda rodoviário nos parou, pediu os documentos, porém o que queria mesmo era ver a moto e puxar assunto sobre a viagem. Gostamos quando isso acontece! Seguimos em frente e agora o asfalto em direção à Cáceres, que noutras épocas era impecável, estava bastante danificado, exigindo cuidados redobrados. Passamos por Cáceres, cidade às margens do folclórico rio Paraguai, e ao entardecer estávamos na cidade de Pontes e Lacerda,a qual está a 300 quilômetros antes da divisa do MT com RO

Pela manhã, ainda escuro, abastecemos e partimos. Mais neblina, porém em menor intensidade. Em compensação, a névoa baixa por sobre a vegetação e o belo nascer do sol nessa região, extremamente plana, com bandos de aves ao horizonte, dava um aspecto surrealista à paisagem. Como nunca havia observado isso nesse trajeto? Talvez tão somente uma questão de detalhes desapercebidos ou observados sob outro ângulo, em sua maioria na clausura de um automóvel.

Nesse trajeto a moto começou a falhar, fato que associei ao último abastecimento. Percorríamos algumas dezenas de quilômetros, a moto falhava, porém, após, voltava ao normal, ou seja, a gasolina de R$ 3,00 o litro, certamente estava "batizada". Após uns 100 quilômetros completei o tanque noutro posto e, surpresa, a moto ficou normal novamente, porém após consumida essa gasolina, certamente pelo fato da "ruim" não se misturar com a "boa", tudo como antes, de forma que chegamos em Vilhena, primeira cidade de Rondônia, bastante irritados com o ocorrido.Esse fato demonstra que, mesmo em se tratando de algo de difícil solução, nesse trajeto devemos tomar precauções com postos de combustível, se possível, abastecendo em locais com melhor infra-estrutura, os quais, certamente devem ter um maior zelo com a própria imagem, apesar de que honestidade é algo de difícil avaliação.

De Vilhena até nosso destino final, a cidade de Pimenta Bueno, faltava tão somente 180 quilômetros. Apenas uma parada na metade do trajeto para tomar água de coco. Chegamos por voltas das 13:00h, sob muito calor, apesar de estarmos em pleno inverno, ou seja, inverno do Sul nada tem em comum com inverno do Norte.

Repouso e Manutenção

Nesse período ficamos no convívio de familiares, curtindo poeira e calor (mesmo no inverno) e, evidentemente, tomando algumas cervejas (eu, pelo menos!), além de aproveitar o tempo para corrigir as adaptações feitas na moto, principalmente em relação ao escapamento, cujo barulho vinha incomodando. Aliás, tomei esta decisão pelo fato de encontrar um mecânico (de automóvel), que me pareceu interessado e capaz de melhorar o sistema que havia sido “bolado” por um “pseudo motociclista” que faz “customização” de motos em minha cidade. Coisas da vida !

Retorno

Por volta das 11:00h almoçamos com a família, colocamos nossas pesadas roupas preparadas para frio sob um calor intenso e iniciamos o caminho de volta, dessa feita sem a opção por caminhos diferentes, algo que fazemos sempre que possível. O trajeto entre Pimenta Bueno e Vilhena (180 quilômetros) foi percorrido em menos de 2 horas, aproveitando o pouco movimento e o bom asfalto, com parada em Vilhena apenas para abastecer e instalar um novo filtro de ar. A moto, agora com seus 8.000 quilômetros rodados, parece cada vez mais “redonda”, de forma que, mantendo uma velocidade média entre 120 e 130 quilômetros por hora, chegamos mais cedo do que o previsto em Pontes e Lacerda (MT), 300 quilômetros após Vilhena, ou seja, o itinerário era exatamente ao contrário, pois nessa localidade havíamos pernoitado na ida.

No hotel, imediatamente fizemos amizade com outros hospedes que nada tinham em comum com o motociclismo, porém mesmo assim falamos sobre nossas viagens, tomamos cerveja e entregamos um adesivo. Uma forma de desmistificar e ter a simpatia de estranhos para o motociclismo.

Monotonia e Belo Amanhecer

Partimos antes do nascer do sol, pois o trajeto entre Pontes e Lacerda (MT) e Coxim (MS) nada tem de especial a não ser o asfalto quase sempre mal conservado. Em compensação, como “Deus ajuda quem cedo madruga”, quem madruga para viajar, tem o privilégio de ver a beleza do nascer do sol. Fatigados, ao final do dia chegamos a Coxim e procuramos outro hotel para pernoitar, afinal, como não tínhamos a opção de escolher outro caminho para retorno, pelo menos tínhamos como escolher outro hotel. Minha companheira de viagem chegou indisposta, certamente por algo ingerido que “não caiu bem” e sequer se dispôs a sair para jantar, o que tive que fazer sozinho.

Cachoeiras e Avestruzes

Partimos, mais uma vez, bastante cedo de Coxim, porém desta vez sem decepção como na ida, afinal, mesmo “solo”, jantei muito bem. Peixe em Coxim...never more! A próxima localidade do trajeto é Rio Verde, bastante conhecida pelas suas “7 Quedas do Rio Verde”. Mesmo havendo morado quase 5 anos em Campo Grande, a “Cidade Morena”, nunca tivemos muito interesse em conhecer essa atração, pois sempre procuramos conhecer as mais distantes. Desta vez resolvemos conferir, afinal estão a apenas 6 quilômetros da Cidade. Realmente valeu a pena. Trata-se de uma seqüência de quedas (7) no Rio Verde, com boa infra-estrutura para os visitantes. Local para belas fotos !

Entre Rio Verde e São Gabriel, região de muita prosperidade agrícola, deparamo-nos com uma fazenda de criação de avestruzes, de forma que paramos para admirar essas curiosas aves que não gostaram do barulho da moto, porém foi desligar o motor que as curiosas aves foram se aproximando para nos darem as boas vindas. Fotografamos e ao acionar o motor os bichos saíram em debandada. Ouvidos sensíveis !

Novamente o péssimo trajeto de asfalto antes da divisa MS/SP, cruzamos a grande ponte sobre o Rio Paraná e passamos diretor por Presidente Prudente no intuito de pernoitar apenas em Assis. Como sempre tenho que aprontar das minhas, tentando fotografar a bela lua cheia que despontava, bais bela ainda em função do dourado do por do sol, terminei por perder as baterias da câmera. Voltamos algumas dezenas de metros e as encontramos, porém não haviam resistido ao peso dos caminhões de forma que “já eram”. Pelo menos fiz uma bela foto como pretendido.

Frio e Mais Neblina

Por comodidade de não tirar os forros quentes das roupas de viagem, no Centro Oeste e Rondônia passamos o maior calor. Eu pelo menos estava sempre com camiseta e camisa manga longa. Agora, com a temperatura baixa e tempo nublado, apenas vestia uma camiseta por baixo da roupa de viagem. É assim mesmo: o sujeito pode viajar a vida inteira que não aprende a por a roupa certa !

De Assis a Ourinhos, bastante frio e dessa até Ponta Grossa, alguns trechos de péssimo asfalto, pois no Paraná, de um modo geral, se a estrada não é pedagiada, normalmente está em péssimo estado. A partir de Ponta Grossa, muita neblina até Campo Largo. Por volta das 17:30 do nosso 4º dia desde a saída de RO, estávamos, novamente, na bela Florianópolis.

Conclusões

Além do aspecto familiar da viagem (visita a parentes distantes), outro motivo foi a adaptação à nova moto adquirida para viagens, no caso uma XT600 transformada em Super Motard. Com sua nova ciclística, essa se mostrou bastante estável em relação à sua concepção original, ou seja, mais adequada para longas viagens.

Certamente, apesar do pouco tempo disponível para a viagem, conseguimos fazer o percurso como previsto, observando detalhes sobre a ótica do motociclismo e apreciando, mesmo que rapidamente, atrações e belezas desse trajeto, uma região de gente arrojada, onde se vê muito progresso.

Graças a Deus, mesmo com o grande fluxo de caminhões a partir da divisa SP/MS até Cuiabá, não sofremos qualquer susto. A moto se mostrou valente, porém não gosta de gasolina “batizada”. “Side Case” que utilizamos pela primeira vez, se mostraram uma opção acertada e cômoda, principalmente ao final do dia quando estamos extremamente cansados, pois, simplesmente apertamos um botão e levamos tudo para o quarto.

Foram 6.000 quilômetros que, mais uma vez, valeram a pena !

Cícero & Lourdes

FIM